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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 34/38

“Por que o seu livro não foi censurado?”

Max Eluard – Acho bacana vocês assumirem a paixão pelo jornalismo, porque é um dos ofícios mais esculhambados e mais avacalhados que tem.
Pedro Alexandre – E pelos próprios jornalistas.
Max Eluard – Sim, em grande parte.
Pedro Alexandre – Estamos num momento doloroso que é o da conscientização disso. Tem muita gente que não tem nada a ver com o jornalismo que está …
Matias – Que está pagando de jornalista?
Pedro Alexandre – Não, o público mesmo, que está se tocando desses abusos, que estão ficando mais transparentes e, às vezes, mais escandalosos.
Dafne – Principalmente pela internet dá para ver as reações aos noticiários, aos editoriais…
Matias – Um exemplo bom disso é o livro do Roberto Carlos, que não estava na internet, foi proibido e em semanas chegou à rede. Por que as pessoas botaram o livro lá? Porque todo mundo vai ler? Não, porque as pessoas pensaram que esse livro não pode ser proibido. Aos poucos as pessoas estão tendo uma consciência disso.
Ricardo Alexandre – É, você citou um caso muito interessante, e essa verve que motivou essas pessoas é uma motivação jornalística de certa maneira. As pessoas perceberam o calor da notícia, tomaram uma iniciativa, só que tem o envolvimento…
Pedro Alexandre – Você está falando do público?
Ricardo Alexandre – O público.
Pedro Alexandre – Porque os jornalistas…
Ricardo Alexandre – Os jornalistas… Agora vou dizer! Estou com uma coluna na Revista da MTV e criei o Cantinho do Roberto Carlos. Em toda a edição vou dar alguma coisa do Roberto Carlos para lembrar que o cara proibiu o único livro que tentava dignificar – o segundo livro que tentava dignificar [risos] – a carreira do cara. Isso mexeu tanto comigo que fiz um texto para sair na edição da Bizz em que pedia desculpas pela minha geração que tentou transformar o Roberto Carlos numa coisa que hoje percebo que ele não é. Ele é, tudo bem, mas…
Pedro Alexandre – Mas, peraí, vejo por outro lado. A minha posição é muito esquisita, é muito complicada. Eu gosto do Paulo Cesar de Araujo, sou fã ardoroso do primeiro livro dele [n.e. Eu não sou cachorro, não  Música popular cafona e ditadura militar], o melhor livro que li nos últimos 15 anos…
Ricardo Alexandre – Tudo bem, eu absorvo… [risos]
Pedro Alexandre – O meu livro do Roberto Carlos remete muito ao do Paulo Cesar, gosto dele, acho um cara legal, mas o livro dele entrou numa ciranda onde há um jogo tácito dentro disso. Hoje é o avião da TAM; há dois meses o livro do Roberto Carlos foi tratado dessa forma. Apenas dois jornalistas, um de Minas e um de rádio, me procuraram para perguntar alguma coisa a respeito disso. E nenhum dos dois me perguntou: “Por que o seu livro não foi censurado?” Evidentemente que não tenho a resposta, mas não existia a curiosidade. O jornalismo ajudou o Roberto Carlos na campanha dele. Eu tive acesso, não revelando como, a trechos do processo do Roberto Carlos contra o livro. Só se fala de dinheiro ali. Desculpa quem me passou essa informação, eu não podia revelar, mas estou revelando. Havia uns itens do processo que dizia que o autor do livro Roberto Carlos em detalhes prejudicou monetariamente o Roberto Carlos porque lançou o livro na mesma época que o disco de fim de ano do Roberto Carlos. O disco vendeu menos no Natal de 2006 porque tinha um produto concorrendo. Desculpa, gente, isso é para todos nós, mas o jornalismo não apurou essa história, não foi ver o que acontecia.
Matias – Nem precisa ir nos autos do processo. O próprio Roberto Carlos está com uma biografia engatilhada, entendeu? Ninguém falou que a biografia do Roberto Carlos está sendo escrita há cinco anos, mas todo mundo sabe…
Pedro Alexandre – Há uns 20. [risos]
Ricardo Alexandre – Perfeito, concordo com você, entretanto eu vejo a natureza da indignação um pouco mais artística do que isso, de ver que os Beatles tem 86 milhões de biografias das quais eles não concordam, tem até uma entrevista clássica que o Paul McCartney deu sobre o livro Revolution in the head: The Beatles, de Ian MacDonald, que dizia que o livro era uma porcaria porque o escritor diz que o John Lennon pensou, e o John Lennon não pensou; diz que o John Lennon falou, mas ele não falou. E a frase do Paul McCartney é “I should know because I was fucking there” [risos] [n.e. “Eu deveria saber já que estava lá, porra”], mas em nenhum momento ele quis proibir. É por isso que eu digo que gostaria que o Roberto Carlos fosse Caetano Veloso, entendeu? Aí ele seria o Paul McCartney, não o Roberto Carlos ou o Zezé di Camargo.
Pedro Alexandre – Vamos ver o que vai acontecer se alguém escrever sobre o Caetano. Não vai acontecer isso, é evidente…
Ricardo Alexandre – Você escreveu! E ele proibiu o seu livro? [n.e. Referência ao primeiro livro de Pedro Alexandre, Tropicalismo – Decadência bonita do samba]
Pedro Alexandre – Não era sobre ele, não é isso. Não estou falando que ele vai proibir, mas cada um sente a água molhando a sua bunda. A minha posição é esquisita, mas o Roberto Carlos está no direito dele de tentar fazer isso, embora ele seja um imbecil ao fazer isso, só que todo mundo deixou. Nós deixamos com a nossa indignação, porque ela não resolve nada, ela não traz o livro de volta. E, de outro modo, o livro não sumiu, ele está aí, vai continuar circulando. Gente, espera lá, tem um pouco de hipocrisia nisso. O que aconteceu nesse processo foi que com isso o Paulo Cesar de Araujo parou de lucrar; agora o livro vai estar em tudo quanto é sebo, vai estar na internet; essa censura não existe! Existe e não existe! À medida que o livro dele está censurado, o meu também está. Como vocês falaram: o Roberto não proibiu, mas Roberto silenciou o meu livro pelo silêncio. Por ele iria processar ou tentar vetar um livro que circulava tão pouquinho? Aí ele estaria dando publicidade para mim. É a lógica da revista Bizz, é o número de corte: “A partir de quantos exemplares a gente processa o cara”. Fiquei chocado quando vi os itens do processo que falam isso.
Ricardo Alexandre – Uma coisa precisa ser dita: o Roberto Carlos sabia do lançamento desse livro, como todo mundo sabia. Eu tive acesso a pessoas próximas ao Roberto Carlos às vésperas do lançamento do livro, e todos o aguardavam com interesse, e confesso que quando o Roberto deu aquela entrevista coletiva falando mal do livro, eu falei: “Taí o Roberto, velhinho batuta, dando uma força para o livro para aparecer mais na mídia!”. Quando falei com o Paulo Cesar – já que ele copiou uns pedaços da minha matéria da Bizz –, “Pô, Paulo, achei que o Roberto Carlos estava dando uma força”.

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Jornalismo cultural
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