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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 31/38

O quanto os artistas estão à mercê da maluquice da gente?

Matias – E quanto o livro te ajudou a ser um melhor jornalista, a apurar melhor as coisas, a checar os fatos, ou isso já estava no dia-a-dia?
Ricardo Alexandre – Tem isso, mas é um pouco ao contrário. Eu queria que tivesse um veículo que registrasse o quanto sou bom jornalista ou o quão sou pouco bom jornalista; que tivesse um registro de como sou capaz de apurar, de analisar… Então é meio showroom de virtudes. É como o Willow na Terra da Magia. [risos] [n.e. Aventura fantástica lançada em 1988, dirigida por Ron Howard e protagonizada por Val Kilmer]
Matias – O que tem a ver somente ele sabe.
Ricardo Alexandre – Willow é um showroom de efeitos digitais, entendeu? O meu era um showroom de… Tem apuração, tem reportagem, tem análise, tem prospecção…
Tacioli – A redação…
Matias – A pesquisa…
Ricardo Alexandre – A redação, exatamente. Então ele foi feito pra isso, exibiçãozinha.
Pedro Alexandre – Pra mim, não, pelo menos o primeiro, que foi meio inconseqüente, mas o segundo mudou a minha vida jornalística e extra-jornalística. Foi uma mudança de paradigma.
Matias – Como?
Pedro Alexandre – É tão difícil. Tem a ver com o que falei antes, de ser polemista a todo o custo, encontrar o Roberto Carlos, que era uma história de amor, uma história de amor reprimida mesmo, acho que isso vale até hoje, com exceções de quem não gosta do Roberto Carlos, gosta escondido, não fala, e eu tinha todas as críticas do mundo a ele, só que eu gostava mesmo assim. Eu escrevi explicitamente “É uma declaração de amor por mais que eu discorde de tudo que ele faça, ele formou o Brasil…”. Enfim, não consigo responder como é, mas eu saí da Folha por causa dele.
Matias – Ficou menos na defensiva?
Pedro Alexandre – Acho que sim. E saí da Folha. Eu vinha nesse processo na Folha, desinteressado de fazer aquelas críticas cruéis, de polemizar e não-sei-o-quê…
Matias – E o livro sendo escrito na Folha?
Pedro Alexandre – Eles estavam deixando. O livro inteiro foi escrito dentro da Folha. Tenho as caixas de pesquisas que eles me deram de graça, muito gentilmente. Mas o processo de construção dele foi de eu me distanciando da Folha. Nunca me perturbaram na Folha com isso, sei lá se poderia ser demitido no futuro, mas quando saí de lá estava numa situação confortável, boa, mas não fazia sentido mais.
Ricardo Alexandre – O quanto o que você bota no papel está misturado com a sua vida pessoal? Entendeu? Do momento em que você pauta o texto até a análise que você faz do disco está impregnado de sua vida pessoal? Não falo de gosto pessoal…
Max Eluard – E do seu imaginário, da sua formação…
Ricardo Alexandre – Ou pra onde você está querendo levar sua vida, sua carreira…
Matias – Ou mais do que isso: você vê tudo o que você faz parte de uma obra? Se você chegar no fim da sua vida e compilar tudo, é a sua biografia?
Ricardo Alexandre – Eu vejo.
Tacioli – Mas você tem essa consciência, de que cada passo na carreira é um tijolinho na biografia?
Pedro Alexandre – Não sei, Alexandre.
Matias – Eu tenho plena consciência disso.
Pedro Alexandre – Não fiz crítica xingando alguém porque eu brigava na vida pessoal. Eu usei o livro pra falar o que estava mudando na minha cabeça. Eu quis fazer um livro sobre o Roberto, sobre o Brasil, sobre a música brasileira, e não sobre mim.
Ricardo Alexandre – Para deixar essa pergunta mais malvada: o quanto os artistas estão à mercê…
Pedro Alexandre – Da maluquice da gente?
Ricardo Alexandre – Exatamente.
Pedro Alexandre – Cem por cento. O quanto eles estiverem preocupados com a nossa maluquice também. Alguns estão muito preocupados, e você sabe muito bem disso.
Tacioli – Depende muito de onde você está também, né?
Pedro Alexandre – Depende.
Tacioli  Se você exercitasse hoje na Carta Capital o papel que você tinha na Folha…
Pedro Alexandre – Isso é legal. Eu acompanhava o (Luis Antônio) Giron, que foi o cara antes de mim (na Folha). E gostava dele, inclusive dos defeitos que porventura tivesse. Quando ele saiu, eu já estava lá. Demorei um tempo para virar o cara que fazia mais ou menos a mesma coisa que ele fazia. Houve um hiato de um ano, um ano e meio. E eu acompanhava as resenhinhas que ele escrevia na Gazeta Mercantil, para onde ele foi depois. “Putz, o Giron perdeu o faro, perdeu a verve.” Fiquei achando que ele tinha perdido tudo. Depois eu passei pelo mesmo processo, e a entender que eu não tinha o mínimo interesse e a mínima vontade de continuar fazendo aquilo. Eu saí de lá para não fazer mais aquilo. Um monte de gente me falou e pensa assim. Eu pensava isso do Giron, “Agora ele não tem o poder da Folha então não fala mal de mais ninguém”. Mas, por outro lado, tenho uma revista semanal, onde posso colocar duas notinhas, e coloco o que eu gosto. Vou pegar o disco que não gostei na semana para falar mal dele numa revista semanal que vai ser lida por 50 mil pessoas? Sou mais gentil comigo mesmo. Eu não vou ficar me expondo a ser o palhaço público, o Pedro Lara, o cara que só vê defeito em tudo. Não era e nunca fui isso, mas fiz esse papel, via defeitos em um monte de coisa, mas sempre amei um monte de coisa…
Matias – Mas você não se arrepende disso?
Pedro Alexandre – Não, não, porque é impossível e inútil se arrepender. E você começa assim para virar outra coisa. Essa é a trajetória…
Matias – Mas eu digo assim: amanhã alguém vai fazer uma compilação dos melhores textos do Pedro Alexandre Sanches.
Pedro Alexandre – Vamos lá, eu quero ajudar a escolher. [risos]
Matias – Você se arrepende se deixar alguém escolher?
Pedro Alexandre – É efêmero…

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Jornalismo cultural
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