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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 29/38

A Editora Abril não sabia da existência da Bizz!

Max Eluard – A Editora Abril não levou o projeto a sério?
Ricardo Alexandre  A Editora Abril não sabia da existência da Bizz! [risos]
Matias  Estava embaixo da escada. [risos]
Max Eluard – Era o sétimo andar e meio. [risos]
Ricardo Alexandre  A gente tinha uma brecha da Superinteressante para lançar especiais, que era essa política que falei no começo. Aí o Adriano Silva me chamou e disse: “Vamos fazer especiais com a marca Bizz!” Fizemos esses especiais: 100 Capas, 100 Shows, 100 não-sei-o-quê, e quando a gente notou a inviabilidade de continuar a fazer esses especiais, começou a inventar os truques para manter a marca Bizz como um título mensal pra ganhar tempo e tentar viabilizar com publicidade. Um dos truques foi a revista continuar como um especial para a Editora Abril. Então, a gente não tinha redação contratada. Perdemos um tempo conversando com um advogado pra fazer com que a revista, sendo um especial, voltasse a usar a numeração na qual a revista tinha parado em 2001. Para o leitor, a Bizz era uma revista mensal, mas pra Abril era uma revista especial.
Matias  Era como se lançasse um especial por mês.
Ricardo Alexandre  Um especial sobre os leões na savana, sem compromisso da publicidade, da Dinap, de ninguém. A Editora Abril somente descobriu que a Bizz estava nas bancas quando saiu uma foto minha no Meio & Mensagem. Os caras ligaram furiosos pro Adriano (Silva)… “Nãão, é um especial!” [risos]
Pedro Alexandre  E eles acreditaram?
Ricardo Alexandre  E era, né? “I see dead people, cara!” Eu vi revistas mortas e elas tentavam falar comigo!
Pedro Alexandre  Mas você tentou bater com uma coisa histórica, que é o desinteresse da Abril por revistas de música, que vem de outras épocas e não de agora.
Ricardo Alexandre  O Adriano Silva foi o cara que quis fazer a revista e por isso sou grato a ele eternamente. Como diz o André Forastieri: “Eu tive a minha vez! Você teve a sua vez!”. [ri] E sou o único cara que topou trabalhar em condições inacreditáveis, entendeu? Não vou nem citá-las…
Matias  Que aí você está pagando de coitadinho. [risos]
Ricardo Alexandre  Pior! Periga algum advogado ler isso, me ligar e falar “Vamos processar a revista!”. [risos]
Matias  O título atrapalhou?
Ricardo Alexandre  Boa pergunta.
Matias  Se vocês lançassem uma revista com outro nome, como Rock Clássico…
Ricardo Alexandre  Se fosse pra fazer uma revista Rock Clássico, o nome ajudaria. Mas uma revista de rock clássico não tem o tamanho que uma Editora Abril gostaria. Traduzindo: nos ajudou a procurar pessoas que eram apaixonadas pela Bizz. Se a gente fizesse a revista Matias, dificilmente teríamos esse impulso inicial. O negócio é o seguinte: quando a revista está dando certo, beleza. Mas quando está dando errado, tudo é motivo. Eu cheguei a ouvir que a revista tinha muito conteúdo!
Matias  Que as cores da capa não ajudavam.
Ricardo Alexandre  A gente teve um projeto, um discurso muito bem amarrado até a capa do iPod. [n.e. Edição 206, novembro 2006] Quando a gente chegou nessa capa, viu que o discurso era “Não temos nada a perder!. Vai que dá certo?”. Era quando os “truques” já estavam se esgotando. Os contratos publicitários já estavam se esvaindo e as agências não renovavam porque perguntavam: “E a assinatura que a Abril prometeu?”, “E o aumento de tiragem que a Abril disse que ia ter?”. E não tinha porque não havia esse compromisso de fato com relação à revista. Então, a gente disse: “Ou a gente acerta na chapinha ou a revista vai acabar como já deveria ter acabado antes de começar”. E a gente não acertou na chapinha. Volto a dizer que nada é maior que o fato de que não há demanda suficiente pra isso. Axl Rose, Renato Russo, John Lennon, Beatles… Não dá, fala um aí… Bob Marley.
Tacioli – Xaxim, cara! [risos]
Ricardo Alexandre  Faltou o xaxim! [risos] Mas o Bob Marley estava ali, né? [risos]
Pedro Alexandre  Mas tudo escondido na banca, né? Houve uma falta de empenho… Se você está dentro de uma grande empresa que não quer a sua revista…
Ricardo Alexandre – Mas acontece que a gente ficava junto com as revistas de música para pobres e a gente era a mais cara de todas, entendeu? Entre o pôster da Avril Lavigne e a Rock Brigade, tinha a Bizz que custava o dobro. Quando a revista tava na Símbolo custava R$ 5. Havia feito um estudo propondo o preço de R$ 7,50, que era o preço histórico da Bizz comparado com o dólar e com o preço de capa da Veja. Falei isso e os caras me chamaram de louco. “Se a gente não ganha dinheiro com R$ 9,90, a gente vai ganhar com R$ 7,50?” Eram várias perguntas não respondidas. “O que aconteceria se tivesse distribuição? Se tivesse assinatura? Se tivesse…?” Não sei, porque foi uma atividade completamente guerrilheira. E foi bacana. Topei porque toparia de qualquer jeito. Tenho uma dívida psicológica e histórica com a Bizz.
Matias – Chegou a traumatizar? E se daqui a cinco anos um cara chegar pra você, falar que a revista vai voltar e te chamar para conversar?
Ricardo Alexandre – Agora que estou “recolocado” posso falar: tenho uma certa preguiça de fazer coisas que já fiz. Então, quando me chamaram na Folha pra ocupar o lugar do Pedro, olhei praquela redação e “Poxa, não tenho a menor vontade de trabalhar em jornal de novo, a não ser, eventualmente, em um projeto que eu esteja gerando”. Assim como não tenho a menor vontade de fazer revista de música de novo.

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Jornalismo cultural
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