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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 28/38

De editor virei gestor

Ricardo Alexandre  Então os especiais fracassaram, não se provaram na banca. E numa dessas mudanças de mentalidade dentro da editora, que só quem trabalha dentro de uma estrutura dessa entende, os especiais passaram a ser mal vistos. Aí, a gente inventou uns “truques” pra manter a Bizz viva. O primeiro foi ir à Claro e vender todos os espaços patrocináveis da revista. A gente vendeu por seis meses. Quando alguém chegava pra gente falando que a revista estava para acabar, “Não, temos seis meses garantidos”. E enquanto esses seis meses desenrolavam, a gente tentava vender outras cotas pra manter a revista por mais seis meses. E a gente conseguiu. Era o “Projeto Apnéia”. [risos] A gente pegava um ar e voltava.
Max – E também era um esforço seu?
Pedro Alexandre  E você conseguia vender sempre para as empresas de celular?
Ricardo Alexandre  Não, era assim. [risos]
Pedro Alexandre  Tô invocado com isso. [risos] Lembro da Motorola…
Ricardo Alexandre  A Volkswagen deu um grande apoio, a Skol…
Pedro Alexandre  Tudo alta cultura! [risos]
Ricardo Alexandre  Não…
Pedro Alexandre  Tô falando da nossa situação como um todo, como jornalismo cultural.
Ricardo Alexandre – Na verdade, a gente sabia que existia em São Paulo dez pessoas muito bem posicionadas no mercado e que eram apaixonadas pela Bizz tanto quanto eu e o Adriano Silva. E a gente foi procurar essas pessoas que tinham posições-chave dentro de grandes empresas e em agências de publicidade. E a gente falava “Precisamos que vocês pensem em alguma coisa porque a Bizz vai acabar. E isso porque a Abril não tem assinatura, não tem inteligência de distribuição, a Abril acha que se uma revista de música vender 4 mil exemplares na banca está bacana”. E você perguntou se era um esforço meu? Absoluto! Comecei a fazer apresentação em agência de publicidade.
Matias  Deixou o jornalismo de lado e virou gestor.
Ricardo Alexandre  É, virei gestor. É o que eu poderia fazer. Não reclamo disso, mas gostaria de…
Matias  Mas é que você não é a melhor pessoa pra fazer isso.
Ricardo Alexandre  A melhor pessoa entre as que tinham? [risos]
Max Eluard – E tomava um tempo que você poderia dedicar para questões editoriais da revista.
Ricardo Alexandre  Sim. Eu passava o mês inteiro fazendo a Bizz existir e com isso ganhava o direito de fazer a Bizz. [ri] Editorialmente fizemos várias coisas discutíveis, mas acho uma revista digníssima. Realmente. Não sei o que vocês acham.
Max Eluard – Era mais uma questão de fundo. Vejo isso pela minha área; trabalho com documentário, com vídeo, e grande parte do esforço vai toda para viabilizar algo e você acaba…
Ricardo Alexandre  Exaurido.
Max Eluard – Exatamente. Você perde o outro lado, que é o que mais te interessa.
Pedro Alexandre  Mas, por outro lado, é o que teatro sempre viveu e o que a música começa a viver. A Marisa Monte está queimando os neurônios dela. Não vem me dizer que ela pensa somente em música. Ou então ela tem um testa-de-ferro que pensa por ela e que precisa ser muito bem pago. Ela tem dinheiro, claro. Se a gente tivesse, chamava um e fazia a revista estourar.
Tacioli – Os menores, os independentes, já fazem isso, vendem shows, discos…
Pedro Alexandre  Todo mundo tem de se gerenciar. O mérito desse pessoal da música é que não começou a reclamar disso ainda, coisa que o povo do teatro já faz. Reclama, reclama, reclama, e o Raul Cortez ganha patrocínio, o Jô Soares ganha patrocínio. E o da música está quietinho, por enquanto. Daqui a pouco começa reclamar.
Ricardo Alexandre  Mas faz parte do negócio. Tenho sempre de citar o grande Emerson Gasperin, que disse “Que se fosse fazer uma revista sem dinheiro faria a minha, e não a da Editora Abril”.
Matias  Claro. [ri]
Pedro Alexandre  E se você fizesse e vendesse mais que a da Editora Abril?
Matias  Não duvido.
Pedro Alexandre  Nem eu.
Ricardo Alexandre  O surgimento da Rolling Stone é um pouco isso. Lembro de uma reunião nos últimos momentos da Bizz em que se discutiu a abertura editorial da revista. E foi nessa reunião que se decidiu colocar o Quentin Tarantino na capa [n.e. Edição 213, maio 2007], mesmo com todas as junkets tendo passado [n.e. Entrevistas com elenco e diretor, sessão exclusiva e material para imprensa, tudo bancado por estúdios de cinema; prática mais comum nos EUA], mesmo com o filme sem estrear no Brasil. [n.e. À prova da morte, o novo filme do cineasta Quentin Tarantino; ainda sem data de estréia no Brasil] “Decidimos” é um modo de dizer, né? [ri] Aí, o que eu disse nessa reunião foi o seguinte: “Olha, posso fazer uma revista idêntica à Rolling Stone no mês que vem. Posso descobrir o que vai ter na revista e fazer tudo igual, mas a Rolling Stone ainda vai continuar R$ 1,50 mais barata que a minha revista, ela vai ter muito mais páginas para o deleite do leitor, ela vai ter um tamanho de capa, uma exposição na banca 20% maior que a minha, e o anúncio vai custar 1/3 do meu. Tudo coisa que a nossa gloriosa editora pode intervir e fazer. Vamos investir juntos?” “Aí, não!” Porque é a política da editora. Por isso que falei no começo que não queria ficar posando de coitado, porque ninguém pode obrigar a Editora Abril a se envolver em um negócio (em que ela não acredita).

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Jornalismo cultural
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