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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 25/38

A memória está ao alcance de cada um

Max Eluard – Mas somente pra completar esta questão…
Ricardo Alexandre  Não vá esquecer o Pedro!
Pedro Alexandre  Posso não responder. Acho ótimo! [risos]
Max Eluard – O Matias citou essa história do DJ Dolores. Vocês vêem na indústria fonográfica brasileira algum movimento, alguém inteligente pensando em coisas bacanas?
Pedro Alexandre  Tem gente inteligente, mas…
Matias  A Trama fez uma série de tentativas, mas acho que o mercado brasileiro ainda não está pronto pra essas tentativas.
Ricardo Alexandre  Até porque as grandes gravadoras fazem coisas em escala industrial. E as escalas industriais estão ficando menores.
Pedro Alexandre  É a armadilha que elas criaram para si próprias, porque, fora os boxes, as gravadoras não educaram o público a gostar de formatos diferentes. Agora não adianta reclamar porque não vai rolar; elas não prepararam.
Matias  Público pra comprar disco ainda tem, mas que tipo de produto está sendo oferecido? Na hora em que você pega a porra do encarte e não tem nem a letra, não há uma mínima ficha técnica, “Pra que vou pagar 20 reais nessa merda?”. Vou na internet e baixo.
Max Eluard  Me parece que o que tem dado uma sobrevida à indústria fonográfica brasileira são os relançamentos em CD, não?
Matias  Não sei que sobrevida, cara. Talvez sobrevida no volume de lançamento, porque se você pegar a quantidade de artistas que uma gravadora tem hoje, não passa de 20. A maioria tem 20 artistas, no máximo. Aí eles precisam lançar 50 CDs, mas tem 20 artistas. Então, o que se faz?
Max Eluard  Reedita o antigo.
Matias  Exatamente. E de qualquer jeito. “Ah! Chama o Charles Gavin pra dar uma remasterizada!” Pra eles, o “Charles Gavin dar uma remasterizada” é o…
Ricardo Alexandre  “It!” [risos]
Matias  Tô procurando o termo marxista…
Ricardo Alexandre  Que é isso? [risos]
Matias  Valor agregado! [risos]
Dafne – Mais-valia se fosse com o Gavin! [risos]
Ricardo Alexandre  Eu tenho uma questão pendente que é saber o trauma da transição do Pedro Alexandre.
Pedro Alexandre  Vocês estão criando uma expectativa… Mas é como você falou, que peguei o último vagão da crítica musical, eu me sinto sempre no último vagão. Fui no último vagão do vinil. Quando fui pra Folha, por uns dois anos, eu não tinha aparelho de CD.
Matias  Nossa! O bastião! [risos]
Pedro Alexandre  E não era por nada. Era uma piração, um parafuso a menos.
Matias  E como você ouvia música nova?
Pedro Alexandre  Não me lembro direito, sei que demorei.
Matias  E MP3?
Pedro Alexandre  E MP3 não uso até hoje.
Matias  Você não baixa música da internet? Nem pra conhecer?
Ricardo Alexandre  Calma, calma, tenho uma outra pergunta! Pedro, você já tem DVD player?
Pedro Alexandre  Tenho, mas demorei muito.
Ricardo Alexandre  Pelo menos a isso ele se rendeu.
Pedro Alexandre  Mas não assisto! [risos]
Matias  Ganhou! Ganhou! [risos] Mandou bem.
Pedro Alexandre  Assisto a filmes, mas a show somente se for obrigado. Assistir a um show dentro de casa?
Ricardo Alexandre  Pedi pra ele fazer uma resenha pra Bizz de um DVD e ele me respondeu: “Ricardo, eu odeio DVD!”. [risos] “Pô, desculpa!”
Matias  VHS é o futuro! [risos]
Pedro Alexandre  É verdade.
Matias  Mas o vídeo-cassete você ainda tem? [risos]
Pedro Alexandre  Tenho, mas não uso mais.
Matias  Nem pra gravar? Vai passar um filme no Supercine…
Pedro Alexandre  Gravava o Big Brother. [risos] Putz, acabei comigo agora. [risos] Mas é estranho, sei lá, porque tenho acesso e sou o cara cobre mais e se interessa mais por música brasileira; então, não estou louco atrás da novidade estrangeira. Eu compro um monte de disco. A questão é que nunca fui e nunca fiz essa imagem de jornalista novidadeiro. Nesse sentido, sou o contrário do Lúcio Ribeiro, talvez até mesmo de você (Matias). O meu trabalho foi por outro lado. Virei por algum tempo o cara que botava na Folha gente que estava no mais profundo esquecimento. Vou citar alguém que já morreu para não magoar ninguém…
Ricardo Alexandre  Vímana! [n.e. Banda de rock progressivo que reuniu em meados da década de 1970 músicos como Lulu Santos, Ritchie, Lobão e Luiz Paulo Simas]
Pedro Alexandre  Isso, o Vímana, alguém que já morreu. [risos] E esse era um nicho, um nicho legal, acho bacana, eu gosto. Às vezes, acho que sou mais pesquisador. Não posso dizer que sou historiador porque não faço, não pratico.
Ricardo Alexandre  Mas isso é um filtro, né?
Pedro Alexandre  Um puta filtro. Talvez seja meu diferencial e a minha desvantagem ao mesmo tempo. A memória sempre vai ser um filtro, um nicho. Vocês são isso também. Vocês lidam com a memória e estão em um meio moderno, a internet. Mas você não está falando grego comigo, ouvi os discos do Daft Punk, mas isso é da indústria. Você não vai me pedir para descobrir alguém estrangeiro que…
Matias  Mas se alguém fala “Tem um cara no MySpace foda!”. Você entra?
Pedro Alexandre  Entro, com uma certa preguiça, mas entro, sim.
Matias  Você ouve música na internet?
Pedro Alexandre  Sim, mas ouço com pouca freqüência.
Matias  Você disse que não é um jornalista novidadeiro, mas você tem um blog. De alguma forma você é novidadeiro.
Pedro Alexandre  Pois é, sou um híbrido esquisito dessas coisas.
Ricardo Alexandre  De qualquer maneira, só fui ouvir o disco do Marconi Notaro [n.e. No sub reino dos metazoários, de 1973, único disco do músico que fez parte da cena psicodélica recifense da década de 1970] por causa da internet.
Pedro Alexandre  E eu porque comprei o CD pirata nas Grandes Galerias. Dá na mesma. consumo um pouco de pirataria. [risos]
Ricardo Alexandre  Uma coisa interessante: teve uma geração depois daquela do jornalista novidadeiro que foi a do Nuggets [n.e. Referência às coletâneas de rock brasileiro nos anos 1960 e 70 feitas na internet e intituladas Brazilian Nuggets], o Senhor F do Fernando Rosa, o próprio Pedro na Folha.
Pedro Alexandre  E todos convivem. Tinha eu e o Lúcio (Ribeiro). A gente era complementar e tem de ser assim. Você não é obrigado a saber de tudo.
Ricardo Alexandre  Mas vejo que até esse modelo está apresentando sinais de exaustão. Afinal, os discos perdidos foram todos encontrados [risos] e a internet democratizou muito. Antes a gente lia que um disco era uma maravilha só porque ninguém conhecia, que é o mesmo raciocínio do Lúcio, com todo respeito ao nosso amigo Lúcio Ribeiro, mas você ia ouvir e era um disco “requenguela” igual a qualquer outro do LS Jack [n.e. Banda de pop rock que durou de 1997 a 2004 e foi liderada por Marcus Menna], entendeu?
Matias  Peraí que vou fazer uma defesa. O que acontece com o Lúcio é que ele não vira e fala: “Isso é! Acreditem…”. Ele dá o link e abre, e o público dele também contribui com o texto dele.
Pedro Alexandre  Mas ele evoluiu pra isso. Ele já foi esse cara que dizia que esse disco “é”. Todo mundo está mudando de lugar. Eu talvez não teria o blog há três anos. Fiz o blog porque saí da Folha e foi uma descoberta. Por um tempo foi a coisa mais legal que fiz na vida. Depois vira lugar-comum.
Ricardo Alexandre  Mas o Lúcio foi um exemplo, talvez não o melhor, do jornalismo da novidade, que é um jornalismo que prevaleceu desde os anos 80.
Dafne  Que é uma linha inglesa, não?
Ricardo Alexandre  Foi, né? A Mojo abriu um caminho para esse jornalismo de clássicos que foi determinante para esse tipo de trabalho, que já apresenta exaustão. Pegar mais uma capa com uma lista sobre os Beatles, “Cem melhores músicas dos filhos dos Beatles”…
Pedro Alexandre  Mas sobre essa exaustão, sempre fiz acreditando, foi uma delícia entrevistar o Hyldon e um monte de gente, mas era uma coisa contaminada por esse discurso “Infeliz o país que não tem memória”. E, na verdade, podia ser que o cara fosse legal porque ninguém mais se lembrava dele. É isso na mesma medida. O Lúcio faz isso ao contrário. Eu acho que ele faz isso até hoje, mas de um modo livre, democrático, sei lá.
Ricardo Alexandre  Irônico, talvez.
Pedro Alexandre – Mas, de novo, tudo tem um lado bom e um lado ruim. Claro que continuo achando importantíssimo descobrir, porque são coisas que iluminam. Ouvir o disco do Ronnie Von me fez entender muita coisa sobre o Tropicalismo, sendo que, se dependesse do mundo como ele era, ninguém ia saber que o Ronnie Von fez parte, de um jeito torto como foi, do Tropicalismo. Seria plausível falar hoje “Pobre do país que não valoriza o Ronnie Von?”. Não cabe mais. Ou a memória como um todo? Morreu esse discurso. A memória está ao alcance de cada um. Se você tem um disco que você gosta, “Severina xique-xique”, e não acha na internet, você vai dar um jeito de colocá-lo. Eu posso fazer isso, mas não tenho os aparelhinhos para fazer… Vive gente me pedindo “Empresta uns discos aí para eu copiar pra CD”. Nunca emprestei, mas porque as pessoas não insistem. Eu adoraria, mas depois vocês não contam pra ninguém. [risos]
Matias  “Emprestam-se discos!” [risos]
Ricardo Alexandre  Um pouco dessa idéia permeou o ressurgimento da Bizz. E essa foi uma conversa que tive muito com caras como o André Forastieri, o Pedro Só, o Emerson Gasperin, que eram quem acreditavam em um modelo de jornalismo musical para caras mais velhos. A gente entendia que era um público interessante e que estava desguarnecido de alguma maneira. Mas continuamos naquele sentido da irrelevância, sabe? É muito cruel para uma revista que está dentro de uma grande estrutura ver que sua relevância é tão fragmentada e pequena. O que não é um problema quando se tem um veículo gratuito com a internet e que não depende do espaço físico da banca.
Tacioli  Mas depende da paixão de quem escreve, né? Você não tem o custo de uma revista, mas tem do operacional, do recurso humano, e a coisa pode se inviabilizar.
Ricardo Alexandre  Você depende de uma resposta, de qualquer maneira.
Tacioli – Mas a internet, por si só, não é um projeto que se sustenta.
Ricardo Alexandre  Às vezes, você tem uma compulsão, você precisa escrever. Como não tenho blog ainda e já senti essa vontade, acabei não escrevendo e fui dar uma volta no quarteirão.
Pedro Alexandre  Como a Neusinha Brizola falava sobre exercício físico, né? Quando ela sentia a vontade, sentava e esperava passar. [risos] Agora fui sacana com você! [risos] Faz esse blog logo!
Ricardo Alexandre  Vou fazer, vou fazer. Mas respondendo a pergunta original sobre o fim da Bizz, acho que tudo isso colabora… A pergunta original que foi feita há duas horas. Nada do que disser sobre isso vai ser mais verdadeiro do que a falta de demanda por um título de música no Brasil de hoje, dentro daquela estrutura e com aquela premissa de venda, mas acho que todas essas transformações estão ligadas dentro disso.

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Jornalismo cultural
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