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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 24/38

Não sei como gravadora não faz camiseta

Dafne – Somos uma das últimas gerações que pegou uma série de mudanças de plataforma, do vinil para o CD, do CD para o MP3. Como foi pra vocês essa transição como consumidores de música?
Pedro Alexandre  Acho que somos um contra-exemplo um do outro. Pra mim foi traumático.
Ricardo Alexandre  Pra mim, a mudança de formato foi irrelevante. A única coisa que realmente aconteceu quando o CD surgiu foi que pessoas tiveram acesso a um material antigo ao mesmo tempo em que o material novo era lançado. Isso foi chocante.
Matias  E com o MP3? Mais ainda…
Ricardo Alexandre  Sim, mas na época do vinil a gente não tinha isso. Citei o exemplo do Bowie porque foi o exemplo mais radical, quando a EMI lançou todos os discos daquela edição da Rykodisc. Pra mim foi um choque. Eu tinha as coisas em fita k-7. E depois a gente começou a ver e falar “Essa aqui é a capa do Blonde on blonde?”, “Essa é a capa do Pet sounds? A gente ouvia tanto falar; eu achava que fosse uma capa muito louca, mas não os caras no zoológico!” [risos]
Max Eluard – Pra mim, o mais traumático foi do CD para o MP3, que é o fim do fetiche do álbum, que você pega, abre, lê o encarte.
Ricardo Alexandre  Chocante mesmo foi olhar para a minha parede e aquilo tudo que eu achava uma coisa valiosa… [risos] “Isso aqui é um estorvo!”
Matias  Mas por outro lado isso não acaba. Esta aí o White Stripes lançando o pen drive. Mas é claro que esse não vai ser o novo suporte, porque vão desenvolver novas formas de fetiches para o objeto que carrega a música. Tem até hoje uma sensação bem parecida com a do Ricardo. No meu HD tenho quatro vezes mais do que tenho na minha coleção de disco, e minha coleção não é pequena. Teve esse primeiro choque. “Vou carregar essas porras feito um caramujo. Pra onde eu for, esses quatro armários vão juntos, saca?” Só que isso não tirou o fetiche de abrir e falar “Lembro quando comprei esse disco. Lembro quando quebrou aqui. Abri o CD e estava quebrado o miolo…”. E você lembra de um monte de histórias relacionadas com aqueles discos… “Esse disco com a namorada tal.” Esse é o desafio da indústria da música, não somente a fonográfica. O que você pode agregar a um produto, que não é mais pago, no caso a música propriamente dita, para a pessoa querer tê-lo? Tem, sei lá, camisetas… Não sei como gravadora não faz camiseta.
Almeida – Todo mundo adora camiseta! [risos]
Matias  E camiseta era brinde de gravadora. As gravadoras faziam camiseta de qualquer disco que elas lançavam e o cara saia com a camiseta na rua e “Pô, nunca vi essa camiseta pra vender! Onde tem?”.
Ricardo Alexandre  Mas gostaria de acrescentar uma coisa antes de passar para a experiência traumática do Pedro. [risos] Sempre achei que o CD, como objeto, não era um negócio bem resolvido. Nunca entendi muito bem aquela presilha onde se põe o encarte e o destrói. “Alguém vai pensar numa embalagem melhor.” Aí, acabou o CD e ninguém pensou. [risos] Por outro lado, já era um caminho para a praticidade do fonograma. A grande vantagem do CD era que se transportava mais fácil, você podia ouvir no carro, coisa que o vinil não permitia. Era natural que chegasse ao MP3. O MP3 é a valorização de alguns critérios, de algumas virtudes que o vinil não tinha e que, até o surgimento do CD, ninguém havia percebido que precisava ter.
Matias  Essa coisa do fetiche táctil. O DJ Dolores acabou ou está pra lançar um livro. O disco novo dele é uma pesquisa sobre as periferias do mundo. E ele vende o livro! A pessoa compra o livro, que vem com o CD encartado. Agora, tem uma questão com a gravadora que não permite o download das músicas, mas se fosse por ele, deixava. Não é a solução ainda porque já tem papel eletrônico. Já vamos ter um livro em branco em que você carrega com o livro que você quiser ler. Aí é pensar em outros objetos… E não sei se é somente objeto. O Ricardo falou agora do DJ, sem rosto, o fim do ídolo, mas acho que o melhor exemplo dessa geração é o Daft Punk. Não tem rosto, mas tem rosto. São somente uns caras apertando uns botões ali, mas é um show! É o Dark side of the moon de hoje em dia. [n.e. Referência ao disco de 1973 dos ingleses do Pink Floyd] Você vê a pirâmide lá, puta iluminação, tudo sincronizado…
Pedro Alexandre  Não tem letra, mas tem letra.
Matias  Exato. E os caras lançaram um disco e chamaram o Leiji Matsumoto, que era o cara que fazia o Patrulha estelar, desenho animado japonês [n.e. Exibido no Japão entre 1974 e 1981], pra fazer um clipe de cada música. E se você assistir todos os clipes em seqüência é um filme! Eles lançaram um CD ao vivo que era um disco que imitava CD-R e que não tinha divisão de faixa. Era uma faixa só. Os caras estão pensando. Tem novidade aí… A indústria cultural só tem domínio sobre aquela coisa até ela ser lançada. Depois é de domínio público.
Ricardo Alexandre  O Pedro precisa contar a história dele. Estou ansioso para ouvir… [risos] Mas também gostaria de concluir o pensamento do Matias dessa coisa do formato padrão, o formato predominante. “Qual vai ser o substituto do CD?” Tudo! Todas as possibilidades.

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Jornalismo cultural
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