gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 23/38

Seu Jorge é revanchismo social transformado em música

Tacioli – Mas como atingir esse público que consome música, seja qual for esse consumo de música, comprando disco, baixando músicas…? Claro que existe o fato de que a cultura artística não está na lista de prioridades da família brasileira.
Ricardo Alexandre  Mas você acha que a gente vive uma situação em que as pessoas interessadas em cultura as coisas não chegam pra elas? As pessoas trombam com as coisas o dia inteiro, ou tô errado?
Matias  Acho que sim.
Ricardo Alexandre  Não tenho essa queixa. Todas as pessoas obcecadas por Pet sounds [n.e. Disco de 1966 do grupo Beach Boys] têm acessos facilitados a essa informação, a ponto dos fãs do Lindomar Castilho chegarem ao Gafieiras.
Pedro Alexandre  E vão ver lá uma matéria com o Thaíde ou sei lá de quem. Ainda que a gente pense no leitor e no público, a gente está sempre pensando num público que é da nossa circunferência.
Matias  A gente critica as gravadoras, mas faz igualzinho a elas.
Pedro Alexandre  A mesma coisa. Jornais e revistas são igualzinhas a uma gravadora.
Ricardo Alexandre  Fora o salário, né?
Max Eluard – A gente falou muito do público, mas como vocês vêem o artista brasileiro?
Pedro Alexandre  Onde ele está escondido? Em que toca?
Max Eluard – E qual é o papel dele? O que ele tem de fazer? Música boa?
Ricardo Alexandre  Há menos artista brasileiro que jornalista musical brasileiro. [risos]
Max Eluard – Ele tem uma função social?
Pedro Alexandre  Ele está bem perdido, como nós estamos.
Ricardo Alexandre  Mas ele tem mais função social que artística.
Pedro Alexandre  Pensei que você ia falar que ele tem mais função social que nós.
Ricardo Alexandre  Ah… Isso muito mais, nem se fala. [risos] Basta ver quantos artistas brasileiros bem-sucedidos fizeram sucesso a partir de identificação popular mesmo, pura e simplesmente, desde funk carioca e Claudinho & Buchecha até 2 Filhos de Francisco [n.e. Filme de 2006 dirigido por Breno Silveira sobre a vida da dupla Zezé di Camargo & Luciano], Mamonas Assassinas… É identificação social.
Max Eluard – Pensando do Calypso ao Chico Buarque, vocês acham que ele tem consciência da sua importância na formação da cultura?
Pedro Alexandre  Tem todo tipo de artista, como não tem um jornalista parecido com o outro.
Matias  E hoje em dia, com essa coisa da publicidade, do marketing, do acontecer e tal, tem cada vez mais artistas preocupados com isso do que com música. Todo mundo aqui conhece um monte de artista bom que não sabe se vender. E o cara que sabe se vender se posiciona melhor. Ainda. Agora, a função artística do artista é continuar compondo e fazendo o trabalho que ele realmente acredita, mas não “Vou fazer uma música para tocar no rádio”, “Vou fazer uma música para virar um jingle”. Mas a gente está numa época de transição e o Seu Jorge vai lá e grava Sagatiba [n.e. “Eterna busca”, música feita pelo compositor carioca por encomenda da marca de cachaça e lançada em América Brasil, o disco (2007)], que não está errado, mas é outra forma do músico sobreviver. Antes de fechar com a Sagatiba, o Seu Jorge não estava preocupado simplesmente em ganhar dinheiro. Ele fazia a música dele, pegava um violãozinho e era um mendigo que ficava ali no Baixo Gávea. Ele queria acontecer, queria aparecer? Queria e encontrou caminhos para isso, mas o artista, em geral, tem de se preocupar com o próprio trabalho.
Pedro Alexandre  Não sei se isso acontece somente agora, mas tenho a impressão que hoje são caras que vêm de algum tipo de periferia que estão sabendo e conseguindo se comunicar melhor. É o caso do Seu Jorge, como é o caso da parceira dele, a Ana Carolina, que era uma cantora de bar em Minas Gerais. E aí os funkeiros, o Calypso…
Matias  O Los Hermanos. Ele está dentro disso, mas foi absorvido pela indústria e aí entrou nesse jogo de “Só vamos dar entrevista quando o disco sair”, “Estamos gravando”, e cai nessa coisa de acontecer mais do que simplesmente fazer música. Não que o Los Hermanos esteja mais preocupado em vender disco do que compor música boa.
Ricardo Alexandre  O que o PAS está dizendo tem a ver com identificação social. Tivemos uma discussão enorme sobre o Seu Jorge certa feita em que defendi a idéia de que ele nada mais era que revanchismo social transformado em música. Algo como “Vou tomar o David Bowie de você, seu burguês!”. [n.e. Sobre a participação no filme e na trilha sonora de A vida aquática de Steve Zissou, de Wes Anderson (2005), no qual Seu Jorge cantou versões em português de clássicos de David Bowie] E aí ele vai lá e faz aquelas coisas que não posso nem lembrar. [risos]
Pedro Alexandre  Isso é polêmico. Mas quem está discutindo a última coisa que o Skank fez? Talvez não seja uma virtude ter um dom para a polêmica, não é um elogio, mas são esses caras que estão sabendo se comunicar melhor. E, à toa ou não, a maioria desses caras tem discurso social, e alguns até político. O funk carioca tem um discurso político ferrado! Não dá pra ninguém mais dizer, como se dizia do axé ou do sertanejo, que aquilo é música de alienado. Desculpa, pode ser a música que você não gosta, mas não é música de alienado. Música de alienado é a do Los Hermanos. Desculpa, música de alienado é a música da nossa turma, é o Fino Coletivo, que eu adoro…
Matias  Tem um discurso social, mas é para um público específico. É que quando a gente fala em periferia tende a achar que é a favela ao redor… É tudo nicho.
Pedro Alexandre  Um cara gay pode ser periferia; se um cigano lançar um disco, desde Sidney Magal… [risos]
Ricardo Alexandre  Juntando isso com aquilo vou dizer o que já te disse: todo mundo é periferia. Todo mundo é minoria.
Pedro Alexandre  E eu vou dizer aquilo que já te disse: uns assumem e outros, não. Eu, por exemplo, nunca assumi que sou um rapaz interiorano do Paraná e que aquela cidade é um cu! Mas era um menino de classe média de lá…
Tacioli – Qual a cidade?
Pedro Alexandre  Maringá. Ah, eu amo, vou pra lá todo ano, mas é ser periferia, sabe? De um jeito muito sutil, sou discriminado por ser um maringaense que, de vez em quando, “porta” sai “porrrta”, apesar de viver em São Paulo onde se pode falar “porrrta”. Mas vá falar “porrrta” na televisão ou no rádio… Você é um caipira, né?
Matias  Mas o certo é “porta”, todo mundo sabe, né? [risos]
Ricardo Alexandre  Pra mim todo mundo é periferia, logo, ninguém é periferia. Todo mundo é minoria.
Pedro Alexandre  Concordo com você, mas qual é a minoria do Otávio Frias Filho [n.e. Diretor de Redação da Folha de São Paulo]?
Max Eluard – Essa é a verdadeira minoria. [risos]
Dafne – A dos donos de jornal.
Pedro Alexandre  Mas qual preconceito ele sofre? Talvez sofra alguns, mas estão muito bem camuflados.
Matias  Na minoria empresarial ele é visto como…
Ricardo Alexandre  Um cara que tinha uma banda gótica nos anos 80. [risos]
Pedro Alexandre  O pai dele fez a rodoviária, era um cara pobre. Ele é minoria, só que ninguém pode saber disso. É tabu! O Roberto Marinho é meio negro, sabe? Mas a partir de um certo status o sujeito mimetiza o meio. Os meus pais não são branquinhos, de olhos azuis, como sou. Os meus pais se camuflaram no meio. A gente viveu nesse século que passou um processo fodido de branqueamento.
Matias  Só que agora o meio está cada vez mais diluído.
Pedro Alexandre  As paredes estão caindo. A (ginasta) Daiane dos Santos faz um exame genético e dá que ela é branca. O que a gente faz? Mas olhando a gente vê que ela é negra, portanto é branca e negra. Mas aí é que está, a Daiane e o Seu Jorge não tem como dizer “Não sou negro”, ainda que o mapa genético negue.
Ricardo Alexandre  Mas vocês acham que a imprensa musical, como a gente costumava enxergar, vivia de absolutismos, de ser o porta-voz, de ser o veículo…?
Matias  Eu acho, mas isso vem do jornalismo e não é somente do jornalismo cultural, dessa “isenção”, “Tô falando um negócio, mas não é a minha opinião, é a verdade”.
Dafne  É a história do jornalismo moderno, e isso internacionalmente.
Pedro Alexandre  Outra parede que está caindo, porque se você fala uma coisa cheio de empáfia num blog ou em um site alguém pode aparecer e te chamar de ridículo, e aí acabou a empáfia.

Tags
Jornalismo cultural
de 38