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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 22/38

Na Folha tinha a ilusão de falar pra 300 mil pessoas

Tacioli – Será que quando se pensa em jornalismo musical e internet, a gente só trata de um tipo de música, de gênero e de público? Encara a música como produto e esquece um outro lado que é o da curtição pra todo mundo…
Matias  Do prazer.
Tacioli  Se você pensa desse jeito, seu público-alvo é muito maior do que aqueles atrelados às plataformas de internet ou aos nichos. Todo mundo ouve música, qualquer tipo de música e me parece que os veículos que tratam de música estão viciados em uma forma de lidar com a informação sobre música. Um dos desafios do Gafieiras é apresentar as histórias da música brasileira para se tornem interessantes a diferentes pessoas, seja a minha mãe, a faxineira… Como chego a elas? Não sei se esse tipo de questão circula no meio. Caso contrário fica aquela coisa de escrever pra dez pessoas… Por isso que as revistas vão à falência ou por isso ainda que a gente joga tudo pra internet como se fosse a salvação, mas a internet, por mais que cresça, ainda é muito pequena.
Dafne – E muito segmentada também.
Ricardo Alexandre  Mas sempre é segmentado.
Tacioli – Mas quando se fala em jornalismo musical, a célula sempre deveria ser a música.
Ricardo Alexandre  Mas talvez, Ricardo, por trabalharmos em posições e em veículos diferentes, a visão que tenho é que quando a gente faz jornalismo musical, quando a gente está escrevendo, é difícil que o valor absoluto seja a música porque sua matéria-prima não é a música, são suas idéias…
Matias  O contexto social de onde o cara veio.
Ricardo Alexandre  O contexto social, as boas histórias… Porra, eu lembro de quando a gente começou a escrever teve aquela onda de bandas que misturavam elementos, do qual o Raimundos foi um grande destaque. Acho que o André Barcinski [n.e. Jornalista e autor de uma biografia-documentário sobre o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão] foi quem escreveu que “essa época rendeu matérias maravilhosas, mas discos horrorosos”. E eles ganhavam muito espaço porque se falava “Tem uma banda que mistura letra de macumba com trash metal e axé.” Pô, é o sonho de todo repórter… Agora, transportando e tentando salvar um pouco o meu raciocínio de querer que o Roberto Carlos seja o Caetano, tem um pouco disso, sinto falta das idéias…
Dafne – Da inquietude.
Ricardo Alexandre – É, que é a matéria-prima do que eu faço. Talvez por isso um site, ou um blog, ou o MySpace, ou o Pitchfork seja muito mais justo com o leitor, porque ali você está tratando a música mais diretamente. O caminho que você faz de uma banca de jornal até o cara ouvir um disco é custoso e injusto às vezes, porque um cara que tem mais capacidade, um melhor desempenho jornalístico e midiático sempre vai ter mais espaço do aquele que não tem. Não é isso? Cês não acham?
Matias  Sim, e isso vai continuar existindo. Não é todo mundo que vai se dispor a se auto-publicar.
Pedro Alexandre  Tem uma coisa que acho fenomenal no meu blog, onde coloco o que eu quiser, inclusive as matérias da Carta Capital. E aí, graças a um “medidorzinho”, descubro uma coisa que jamais teria condição de descobrir, de saber com quais palavras-chave as pessoas chegaram ao meu blog. O maior número de pessoas que acessa o meu blog entra porque digitou a palavra “ciganos”. Isso porque fiz umamatéria sobre ciganos uma vez na Carta Capital, que não era um tema pra mim e continuou não sendo depois, mas traz um monte de gente para o meu blog. Então, essa é uma palavra mágica! Há outras…
Ricardo Alexandre  Você pode fazer a lista por favor? [risos]
Pedro Alexandre  Melhor são as frases inteiras: “Quero ver fotos de bonecas transando”. [risos] Mas no fundo eu nunca penso quem vai ler. Não consigo pensar nisso.
Tacioli – Isso hoje ou sempre?
Pedro Alexandre  Sempre, sempre. Nunca consegui ir por esse lado, mas no blog eu descubro isso, e que legal…
Matias  Mas é um diálogo, né? Você fala com alguém o tempo todo.
Pedro Alexandre  A matéria dos ciganos foi reveladora, das matérias que mais amei fazer na vida. Foi uma coisa que vou carregar com orgulho, e daí vejo isso atraindo pessoas e falo, “Putz, tem alguma coisa misteriosa acontecendo aqui”.
Ricardo Alexandre  Mas isso não te perturba?
Pedro Alexandre  Como?
Ricardo Alexandre  A percepção que eu tinha dirigindo a Bizz, e de saber que estava deixando muita gente insatisfeita, era como se eu estivesse dirigindo um carro com cinco mulheres no banco de trás falando muito e ao mesmo tempo, “Vira pra esquerda”, “Vira pra direita”, “Olha o sinal”, Avança”, “Volta”…
Pedro Alexandre  Esse era o peso da sua responsabilidade.
Ricardo Alexandre  “Pára de falar, pelo amor de Deus, que vou bater!” [risos]
Pedro Alexandre  Mas isso era o peso da responsabilidade que você estava arcando. Entram umas 200, 250 pessoas por dia no meu blog. Pouquíssimo… Na Folha eu tinha a ilusão de falar pra 300 mil pessoas… É agulha no palheiro, mas é eterno! A matéria dos ciganos saiu em 2004 e tem gente até hoje chegando a ela e lendo-a.
Matias  E comentando?
Pedro Alexandre  Nem tanto, mas estão usando pra eles, tem uma conexão sendo revelada. E aí posso querer ficar ligado, posso deixar de ser jornalista musical e virar jornalista cigano. [risos] É um nicho que não foi descoberto ainda, vai saber…
Ricardo Alexandre  Voltamos então ao que a gente falava antes de ligar o gravador, que é o fabuloso livro Cauda longa [n.e. Escrito por Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired], que sempre vai ter um maluco pra chegar no que você está fazendo. E isso é uma característica. Um dos poucos feedbacks que a gente teve da Dinap [n.e. Empresa do Grupo Abril que distribui e comercializa os produtos Abril] em termos de distribuição da revista é que era muito pulverizada. Era uma revista que vendia muito pouco em cada ponto-de-venda onde ela estava. Então era preferível ter uma distribuição abrangente porque sempre tinha um louco pra entrar na banca e pra comprar a revista, mas dificilmente era mais de um. Embora a gente não teve nenhuma atitude inteligente ou concatenada para explorar essa característica da revista, é um pouco isso. Se você tem um canal pra chegar a todo mundo a custo baixo – não estou falando em revista de papel porque estaria competindo na banca com a Caras; no caso é a internet –, você chega a todo mundo que gosta das suas idiossincrasias.
Pedro Alexandre Você (Tacioli) falou que uma das matérias que mais atrai leitores para o Gafieiras é a entrevista com o Lindomar Castilho. Isso não te dá um orgulho? Não te faz olhar o Lindomar Castilho de um outro jeito? Tem uma coisa ali.

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Jornalismo cultural
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