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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 21/38

Adoraria que o Roberto Carlos fosse como o Caetano

Ricardo Alexandre  Veja se isso casa com os que vocês falaram: hoje a gente tem uma percepção mais horizontal da música que não havia nos anos 80. Por exemplo: lembro que quando peguei na mão a capa do Ziggy Stardust, do David Bowie [n.e. Disco de 1972], eu fiquei louco. “É assim a capa desse disco?” A gente trocava fita K-7 e não sabia como era a capa do disco! Então a gente não tinha essa idéia que o disco do Marcelo D2 vai conviver com o Blonde on blonde [n.e. Disco do Bob Dylan de 1966] na prateleira. E vai conviver pra sempre agora.
Pedro Alexandre  Será que a gente está ficando velho ou os moleques também sentem isso com o Yeah Yeah Yeahs, por exemplo?
Matias  Acho que eles ficam esperando, sim. Acho que isso ainda tem.
Ricardo Alexandre  Mas o moleque prefere comprar o novo do Yeah Yeah Yeahs ou, de cara, o moleque de 14 anos que não viveu o lançamento do (What’s the story) Morning glory? [n.e. Segundo disco do grupo inglês Oasis; lançado em 1995] vai preferir este àquele porque é muito melhor?
Matias  Não entendi o que você está querendo dizer.
Ricardo Alexandre  Que os novos artistas estão em pé de igualdade em termos de ocupação de espaço com os clássicos.
Pedro Alexandre  Não tem aí uma demolição da figura ídolo e que o DJ teve um papel importante nisso? Essa sua pergunta talvez seja uma ilusão romântica, que a gente precisava de ídolos. A gente poderia discutir o programa Ídolos [n.e. Programa do SBT], porque eles não revelam ninguém.
Ricardo Alexandre  Estou pensando em outra coisa mais bombástica que isso, mas continue… Quando surgiu o fenômeno DJ, eu conversava muito sobre isso com o Camilo Rocha. [n.e. DJ e jornalista musical especializado em música eletrônica] O DJ é a inviabilidade da imprensa musical, porque você não tem um rosto pra vender revista, não tem letra pro cara defender um discurso… Claro que em uma análise mais profunda o não-discurso também é um discurso, mas de qualquer maneira…
Pedro Alexandre  Dificultou a vida das revistas…
Ricardo Alexandre  Muito. “Pára! Pára! Escondam essas caras agora!” [risos] E a relação utilitária que o público de dance music, de música eletrônica, tem com a música, que é para dançar e não para ler, numa análise rápida, é a falência desse formato que a gente tinha.
Pedro Alexandre  Então, não foi bom? Graças a isso…
Dafne  (…) A revista Bizz acabou. [risos]
Pedro Alexandre  O que você falou?
Matias  Graças a isso a Bizz acabou. [risos]
Pedro Alexandre  Então vou falar de novo porque vocês prestaram mais atenção nisso. Graças a isso não falamos o nome do Caetano Veloso nenhuma vez até agora
Matias  Ele (Ricardo Alexandre) já falou! Falou do disco novo do Caetano! E também falou quando era contratado da Philips.
Pedro Alexandre  E eu falei a terceira e a quarta. [risos]
Matias  Eu não tenho nada a ver com isso. [risos] Pode ver aí, não falei nenhuma vez daquele cujo nome não se deve pronunciar. [risos]
Max Eluard – Mas qual o problema em falar o nome do Caetano?
Pedro Alexandre  Porque o Caetano é a exacerbação do ídolo, mas para um nicho de pessoas. O Marcelo Camelo também é isso. Marcelo Camelo já enjoou, cansou… Quanto tempo vai sustentar essa coisa do cara genial, “do caralho”?
Ricardo Alexandre  Até ele lançar o disco-solo, né? Aí vai acabar essa história do artista genial.
Matias  Imagine quando lançar o disco-solo. Se já acha “Anna Júlia” um saco, imagine uma porrada de fãs indo ao show-solo dele pedindo Los Hermanos! Ninguém vai querer escutar as músicas do disco novo. [ri]
Ricardo Alexandre  Mas vou dizer uma coisa como o advogado do Caetano agora… [risos]
Matias  Quarta vez. [risos]
Pedro Alexandre  Pronto, agora fudeu, vai ser o resto da entrevista. [risos]
Ricardo Alexandre  Não, espero que a gente consiga sair dessa lama… [ri] Eu gostaria muito que outros artistas da estatura do Caetano, e do Caetano pra cima, fossem como o Caetano. Adoraria que o Roberto Carlos fosse como o Caetano.
Pedro Alexandre  Deixa o Roberto Carlos ser do jeito que ele é.
Ricardo Alexandre  Censurando o livro dos outros, né?
Pedro Alexandre  Não tô defendendo, mas vamos pensar isso pros novos…
Matias  Cada artista tem a sua característica.
Pedro Alexandre  Essa é a idéia pela qual eu brigo. Não tem de pensar no que a gente gostaria que eles fossem. Vou ouvi-los e achar o que eu quiser e isso é legal porque agora tem tanta gente a ponto de não ter esse sentimento “Ah, que genial isso aqui!”. Muita coisa que a gente achou genial na vida…
Matias  Era genial porque éramos moleques. E hoje estamos mais velhos também.
Pedro Alexandre  E era genial, mas era também a manipulação. O David Bowie era de sei lá qual gravadora e tinha sua manivela girando ali… Eu, pessoalmente, estou cansado dessa idéia de idolatrar. Aí você elege dez artistas pra idolatrar. Eu idolatro ainda, tenho os meus, mas faço quietinho, sabe? [ri]
Matias  O público ainda tem os artistas dele, mas é uma coisa de idade.
Pedro Alexandre  Mas a idolatria de hoje não é diferente, não é mais cínica?
Matias  O Rebeldes [n.e. Grupo pop juvenil mexicano, também conhecido como RBD] é idolatrado inocentemente, não tem cinismo.
Pedro Alexandre  E por que o Los Hermanos é idolatrado? Não tem uma rebeldia, tem?
Matias  Não. Tem rebeldia contra o sistema, o status quo, mas uma coisa pela negação. Por isso acho que o Los Hermanos cabe nesse exemplo que o Ricardo falou de Mano Brown, Renato Russo e Marisa Monte.

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Jornalismo cultural
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