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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 20/38

Marisa Monte e Calypso são do mesmo planeta

Max Eluard – Tem alguma coisa de música brasileira, mesmo um disco de algum artista consagrado, que nos últimos anos os surpreendeu?
Almeida – E aproveitando: a Marisa Monte é uma figura que não precisa dessa estrutura para criar expectativas? Ela independe disso?
Pedro Alexandre  Ela é uma marca bem-construída.
Ricardo Alexandre  É uma marca. Costumo dizer que a Marisa Monte é um dos três grandes exemplos de marketing adequado a essa repulsa que o brasileiro médio tem pelo sucesso e pela superexposição. Os outros dois são o Renato Russo e o Racionais MC’s.
Matias  O Los Hermanos também, né?
Ricardo Alexandre  O Los Hermanos também, mas já pegou um esfacelamento da indústria que diminuiu um pouco o tamanho dele.
Pedro Alexandre  Peraí, não sei se compreendi. Esses caras que você citou são mesmo o quê?
Ricardo Alexandre  É o marketing do não-marketing. É o cara que diz que não precisa da mídia. O Racionais MC’s tem aquele caso clássico, quando expulsou a Globo de uma coletiva, sendo que foi ele quem chamou a Globo. Expulsou a Globo na frente das outras emissoras. [ri]
Pedro Alexandre  Mas em outro campo a Banda Calypso é isso também. Ela é um sucesso de marketing estrondoso, mas sem marketing.
Ricardo Alexandre  Mas acho que o Calypso passa mais por um fenômeno popular do que por uma utilização (da mídia).
Pedro Alexandre  Mas quando essas coisas vão se encontrar, pelo amor de Deus? Quando a gente vai entender que a Marisa Monte e a Banda Calypso podem significar a mesma coisa?
Matias  São do mesmo planeta, né?
Pedro Alexandre  São do mesmo planeta e muito mais do que se imagina!
Ricardo Alexandre  Eles são, mas é que a gente está falando de mídia. Em um existe manipulação deliberada de mídia e no outro, não.
Pedro Alexandre  Ou há uma nova? E junto com isso, ambos têm seus méritos. Marisa Monte consegue porque merece e Calypso consegue porque merece.
Ricardo Alexandre  Conseguem, mas não é isso que eu tô falando. [ri] Você tá querendo “carta capitalizar” o raciocínio. [risos]
Pedro Alexandre  Como é isso? [ri]
Ricardo Alexandre  Não tem mérito social e artístico nisso aí. O que eu estou dizendo é que em um caso há uma vontade deliberada de manipular a mídia, tanto no caso do Renato Russo, quanto no da Marisa Monte, quanto no do… Qual era o outro mesmo?
Matias  Racionais.
Ricardo Alexandre  Racionais… pra você ver a convicção que tenho dessas coisas. Mas no caso do Calypso e de vários outros exemplos simplesmente passam ao largo da percepção da mídia, por preconceito ou seja lá o que for, mas não vejo manipulação da mídia.
Pedro Alexandre  Não sei. Não sei se vocês viram o texto do Hermano Vianna no Overmundo sobre a história dele com o Calypso. Em certa altura ele conta quando foi convidado pra visitar a mansão dos Calypsos. Era uma festinha para poucos, para os íntimos. Estavam lá o Zezé di Camargo & Luciano, o Bruno & Marrone… Os donos da indústria atualmente. Se o Calypso corre por fora ou por dentro, o certo é que ele está muito entrosado e ninguém está sabendo.
Matias  Agora é que começou a se entrosar. Mas acho que ele tem uma negação a partir do momento em que afirma que “Não vou vender disco na loja”, entendeu? Isso tem a ver com o que você está falando.
Pedro Alexandre  Nesse sentido, é a banda que melhor compreendeu as mudanças que a gente está falando, porque simplesmente rejeitou o modelo anterior e está sendo amplamente bem-sucedida. Talvez venham mais exemplos por aí.
Matias  Com certeza. O próprio Racionais também faz isso, independentemente do marketing, independentemente da cara de mau. O Racionais começou a crescer com essa coisa da cara de mau depois do Sobrevivendo no inferno. [n.e. Disco de 1998 que tem no repertório músicas como “Diário de um detento”, “Tô ouvindo alguém me chamar”, “Fórmula mágica da paz” e “Capítulo 4, Versículo 3″]
Pedro Alexandre  Até já passou; o Racionais está na fase televisionada. [n.e. Sempre avesso a entrevistas e aparições televisivas, o grupo foi ao programa Ensaio de Fernando Faro em 2006 e, após esta entrevista, o rapper Mano Brown foi ao Roda Viva, ambos da TV Cultura]
Ricardo Alexandre  Isso, sim, ajuda a entender essa distinção que eu estava querendo propor: o Racionais era um sucesso popular e começou a manipular a mídia. Isso pode conviver perfeitamente, não há mérito e nem demérito nisso.
Pedro Alexandre  Um não anula o outro.
Ricardo Alexandre  Mas você tinha perguntado outra coisa…
Almeida – Vocês ouviram recentemente alguma coisa surpreendente, um lançamento que causou furor?
Pedro Alexandre  Tem muitas coisas que ouço e gosto, mas não gosto de cultivar esse sentimento que você está falando. Sou velho já, não sou mais adolescente de ficar na loja e “Vai chegar o novo do…”.
Matias  Mas você está falando de expectativa ou de corresponder à expectativa?
Almeida – De surpreender.
Pedro Alexandre  Tem coisas que eu gosto. Gosto do Fino Coletivo, mas não vou sair correndo para um show dele.

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Jornalismo cultural
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