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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 19/38

São cinco famílias que definem o que vamos ler e assistir

Tacioli – Saiu agora pela Funarte uma edição fac-símile da Revista de Música Popular, dos anos 1950 e 60, que fala um pouco de tudo. [n.e. Na verdade, os 14 números da revista comandada por Lúcio Rangel e Pérsio de Moraes foram editados entre 1954 e 1956] Parece-me que é muito próximo do que a gente vive hoje, mas com outra mídia que é a internet. Por exemplo: o Jorge Amado fala da Carmen Miranda, não porque é amigo, mas comenta a sua música…
Dafne – O Pasquim seria algo assim, né?
Matias  Acho que sim. A Caros Amigos, no começo, era também um pouco isso. Só que depois virou uma revista de política. Se ela fosse uma revista e ponto talvez não tivesse essa pecha que acabou contaminando-a.
Tacioli – A Piauí tem isso?

[silêncio]

Matias  A Piauí é uma tentativa.
Pedro Alexandre  Que silêncio ensurdecedor. [ri]
Ricardo Alexandre  Feno rolando. [risos]
Pedro Alexandre  Mas é uma tentativa, talvez meio que sem-querer. O projeto da Rolling Stone tem quanto tempo, uns 30 anos?
Matias  Quarenta.
Pedro Alexandre  Quarenta. A Piauí…?
Ricardo Alexandre  Acho que também tem 40. [risos]
Pedro Alexandre  Mas o que quero dizer é que essas duas revistas fogem da mesmice dos formatos que a gente estava acostumado a ver. Fiz uma matéria pra Rolling Stone em que escrevi 40 mil toques. Eu nunca havia escrito 40 mil toques na minha vida! Eu não conseguia. Foi um desafio como jornalista.
Tacioli  E você nunca escreveu?
Matias  Ah, eu escrevo isso por dia. [risos]
Ricardo Alexandre  Tem uma história fantástica do Matias! O Emerson Gasperin entrou no Trabalho Sujo e aumentou o tamanho da fonte pra ler enquanto fazia esteira. Ele ficou uma hora na esteira e o texto não estava nem na metade. Aí ele parou e me ligou… [risos]
Pedro Alexandre  Aí é que tá. Talvez seja uma porcaria partir pra isso, mas gente não sabe, a gente não tinha direito de fazer jornalismo com matéria grande. Nisso a Piauí e a Rolling Stone são iguais. Chego a essa conclusão. O que elas trazem de diferente é isso. O jornalista que escrever ali vai ter de aprender a escrever bastante.
Ricardo Alexandre  Isso é uma coisa que falei pro Quinho. [n.e. Ricardo Cruz, editor da Rolling Stone brasileira] Embora ele tenha espaço, as pessoas não sabem escrever daquele jeito. Vão ter de aprender.
Pedro Alexandre  Ou vai aprender ou vai parar. Daqui a pouco eles desistem, a revista fecha, não sei. Nada indica que isso vá acontecer, mas…
Matias  Tem uma geração que nasceu nos anos 1980 que não escreve e não lê porra nenhuma. A gente está vivendo a época em que essa geração determina o mercado, ao passo que a molecada que nasceu nos anos 90 escreve.
Pedro Alexandre  Voltou a ler e a escrever.
Matias  A internet é a literatura desses caras.
Pedro Alexandre  O legal vai ser daqui a 20 anos.
Matias  Legal vai ser quando os caras da geração de 80 forem contratar os dos anos 90 e esses derem um baile.
Pedro Alexandre  Olha, nunca havia pensando nisso e adorei ter pensado: a gente é cheio de falar que o legal era há 20 anos, nos anos 60, 70 e 80. O legal vai ser daqui a 20 anos quando a gente estiver de cabelos brancos e ainda poder participar.
Matias  Tenho certeza disso. Sou super otimista em relação a isso. Outro dia fiz uma matéria no Estadão sobre literatura online e encontrei um blog de uma menina de 14 anos que faz resenhas de livros. Literatura clássica. Ela lê o Dom Quixote e publica um texto de 20 mil toques falando sobre o livro. Aí a Rolling Stone não vai ter texto pra publicar? Vai! O problema é que a gente está na transição.
Tacioli – Ao mesmo tempo em que se aumenta essa quantidade de informação e todo mundo é um gerador de conteúdo, independentemente da mídia, não é preciso um filtro?
Pedro Alexandre  Tem de abolir o filtro.
Tacioli – Por exemplo: sou uma menina de 12 anos e leio um texto… [risos]
Almeida – Eu te dava 16. [risos]
Ricardo Alexandre  Você tá bem, hein? [risos]
Pedro Alexandre  Você está com problema hormonal. [risos]
Matias  Tá comendo carne de lata. [risos]
Tacioli – Mas posso entender aquilo que escrevo como verdade por mais que não seja.
Pedro Alexandre  Mas, Ricardo, o filtro que existia e que estávamos acostumados, e que nascemos, crescemos e viramos adultos dentro dele, é um filtro autoritário. São cinco famílias que definem o que vamos ler, o que vamos assistir na TV… A mentira é a mesma. A gente vai ler sem filtro 400 mil coisas, vai estar um monte de coisa errada, um monte de coisa certa e talvez não exista certo ou errado; todo mundo é um mentiroso por excelência porque fala aquilo que acredita.
Ricardo Alexandre  A lógica dos links na internet talvez seja o filtro mais adequado. Se você está no Trabalho Sujo, você consegue chegar a outros 10 ou 15 sites que têm a ver com aquele perfil, com a sua visão de mundo, com o seu corte editorial, e o internauta chega nas coisas que o Matias propõe ou não. Os links no meio do texto já são um filtro. A Amazon é assim. O All Music Guide é assim. São filtros, mas têm uma moral diferente.
Matias  Todo mundo é produtor de conteúdo e todo mundo é filtro. Acho que a tendência é essa. A gente está começando a passar dessa fase de “Eu posso produzir” pra fase do “Eu posso dizer que isso é bom ou é ruim”. As pessoas que já estão publicando, estão percebendo a importância delas como críticos.
Pedro Alexandre  E até que aconteça algum acidente de percurso, a gente no Brasil vive a primeira experiência de sociedade não-autoritária. Ainda está cheio de autoritarismo pra tudo quanto é lado, mas esse exercício de tanto tirar o filtro, quanto de qualquer um poder fazer conteúdo abole classe social, abole hierarquia, abole um monte de coisas e, portanto, abole o autoritarismo. O cara mais fodão, o mais ranheta, quando tiver coragem de escrever alguma coisa no blog vai ser metralhado ali e vai ouvir cara-a-cara aquilo que não ouvia. Tanto que muitos não têm coragem. A maioria dos jornalistas que está no mainstrean não tem coragem de ter um blog e, quando tem, faz sem comentários.
Matias  Ou coloca comentário mediado, né?
Pedro Alexandre  O que faz mediado já é corajoso em comparação. Como você é jornalista, gosta de escrever e não sente vontade de usar essa ferramenta, mesmo que você esteja em altos cargos, mesmo que você seja a Renata LoPrete… [n.e. Jornalista da Folha de S. Paulo; atualmente edita a seção Painel no primeiro caderno do jornal]
Ricardo Alexandre  O meu (blog) vai estrear até o fim do ano, tá, pessoal? [risos]
Pedro Alexandre  Tá fazendo o projeto gráfico?
Dafne – Já tem nome?
Ricardo Alexandre  Tem nome, mas não posso revelar porque não registrei ainda. [n.e. Semanas depois da entrevista, Ricardo Alexandre comunicou que o seu blog chama-se Causa Própria]
Pedro Alexandre  Que demora, Ricardo!
Tacioli – Tá procurando um patrocínio?
Ricardo Alexandre  Tô esperando um empresário pra me agenciar.
Tacioli – Uma empresa bélica. [risos]

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Jornalismo cultural
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