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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 18/38

A tendência é sair do especialista e ir pro generalista

Dafne – Mas esse “tanto faz” que está movimentando e atormentando todo mundo vai continuar?
Ricardo Alexandre  O Matias acha que não. Eu acho que sim.
Matias  Esse “tanto faz”, na verdade, são duas coisas. Por um lado é “tanto faz” e por outro “tudo é do caralho”. O Lúcio Ribeiro é o melhor exemplo disso. O Lúcio hypaqualquer merda que apareça. É a função do cara. É aquela coisa que tu já escreveu: é o jornalista brasileiro que melhor usou a internet. Se tem alguém que já tá lá é o Lúcio. Se ele falar bem de uma banda e não acontecer é a lógica do colunismo de política ou de economia… Você pode soltar as maiores bravatas do mundo, se acertar uma “Falei! Falei disso há três anos”. Se você errar, ninguém vai lembrar.
Pedro Alexandre  E como ele cobre tudo, a chance de acertar é quase 100%. Porque entre tudo o que ele fala, alguma coisa acontece.
Matias  Exato. O Lúcio é um jornalista de música? Sim, a princípio, sim. Ele escreve na Folha sobre música, mas se você ler a coluna dele tem notas sobre o (seriado) 24 horas, fofoca de artista e de produtor…
Tacioli – É jornalismo musical?
Matias  Eu acho que é.
Pedro Alexandre  É, misturado com outras coisas, porque as paredes estão caindo…
Tacioli – Mas antigamente não era.
Pedro Alexandre  Antigamente existia jornalista musical, que só fazia isso. Mas essa lógica vai acabar também, porque eu gosto de música, primeiro, mas também gosto de política. E aí, sem querer, você põe no seu blog, no seu espaço, as coisas que você gosta. Então, deixei de ser um jornalista musical no blog. Nem na Carta Capital sou mais porque isso é um fenômeno que vai vazar fortemente. O último editor que tive na Folha – o Cássio Starling Carlos, muito legal por sinal – queria que os repórteres fizessem matérias juntos. Durou pouco tempo, saí logo depois… Ele queria que eu fizesse uma matéria com a Silvana Arantes, que era especialista em cinema. Haveria alguma uma coisa em que nossos interesses se juntariam e teríamos de resolver e fazer junto. E aí surgiu o filme do Cazuza [n.e. Cazuza  O tempo não pára, filme de 2004 dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho], que deu motivo pra fazer a matéria mais divertida da década pra gente. A gente se dava bem e fazia todo sentido falar sobre música e cinema ao mesmo tempo. Isso vai acontecer cada vez porque a parede caiu.
Tacioli – Mas não é uma volta para aquele jornalista generalista dos anos 50?
Matias  Total. É isso aí.
Ricardo Alexandre  É um pouquinho, sim, mas tem a ver com o fato da música estar cada vez mais a serviço de alguma coisa. A música não é um fim em si como era quando a Rolling Stone surgiu em 1967, quando era o motor da revolução. Hoje na Carta Capital o Pedro está a serviço de uma visão editorial “De que a esquerda blá blá blá” e na Rolling Stone está a serviço de que “Sim, nós temos um mainstrean cheio de glamour e com pessoas que tiram fotos com cabelos esvoaçantes”. O.K. Tem de se discutir se não foi essa visão da música como um fim em si que inviabiliza uma revista de música como a Bizz.
Pedro Alexandre  Mas só uma coisa no terreno pessoal. Gosto de música do jeito que sempre gostei, com a mesma intensidade. Compro o mesmo número de discos. Nunca parei de comprar discos. Meu interesse não se modificou. Só que agora eu finjo menos que só gosto de música. De vez em quando vou falar de um filme, mesmo na revista onde já fiz matéria sobre cinema, sobre circo… Posso extravasar outras coisas que, sei lá porque diabos, também me interessam. Antes diziam “Aquele cara é um especialista em música e ele só serve pra fazer isso. Na verdade ele é um inútil”. [ri] A gente só serve pra fazer uma coisa na vida?
Matias  E o que é jornalismo musical? Você escreve sobre comportamento, sobre música, sobre o mercado de discos…
Pedro Alexandre  Fofoca.
Matias  Isso é o jornalista de cultura, que é pouco um de cada, mas acredito piamente que a tendência é sair do especialista e ir pro generalista, um cara que saiba falar sobre tudo e não somente sobre música.

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Jornalismo cultural
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