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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 17/38

Não tem como artista gostar da gente

Tacioli – Mas, Pedro, fora o enxame, qual é o barato de trabalhar na Folha?
Pedro Alexandre  É legal à beça.
Ricardo Alexandre  Mas antes de você responder é bom falar como era legal trabalhar na Folha na época do projeto “Folha um milhão”, na época em que as pessoas liam e repercutiam o que o Pedro Alexandre escrevia.
Pedro Alexandre  Não tenho muita consciência disso, sabia?
Matias  O que repercutia? Quem repercutia essas coisas antes da internet?
Tacioli – Você não se lembra da passeata da Paulista? [risos]
Matias  “Basta de PAS!” [risos]
Ricardo Alexandre  “Queremos mais estrelas! Queremos mais estrelas!”
Matias  Ah, repercutia entre a gente.
Ricardo Alexandre  E entre os artistas, cara!
Pedro Alexandre  Sei lá, acho que é uma repercussão bem venenosa. Não tem como o artista gostar da gente, desculpa, ainda que ele finja que goste, somos um enxame de abelhas…
Matias  “O Pedro desceu o cacete em fulano de tal na Folha”, mas quem lia isso? Lembro de quando trabalhava na Trama, o João Marcelo [Bôscoli] me ligou de manhã em casa, “Eu vou responder para o Ronaldo Evangelista!” “O quê?” “Vou responder porque o que ele escreveu sobre o disco ao vivo do Simoninha não se escreve em canto nenhum!” “Meu, quem leu? Se você responder, você vai dar uma atenção muito maior que as pessoas que folhearam e “Simoninha? Não vou ler”, saca? É um ou outro que ficou indignado.”
Pedro Alexandre  Falando em outra escala, foi isso que o Roberto Carlos teve de fazer quando decidiu prender o livro. Acabou dando muito mais publicidade e o livro vendeu muito mais, só que o Roberto Carlos voltou para o topo da parada junto. Mas quem ouve Roberto Carlos? Ouve, mas tem um jogo aí…
Ricardo Alexandre  Mas isso aí é um pouco a volta do que a gente falou no começo, “Quem se importa para o fato de tudo estar diluído, tudo tão ‘nichado’?”. Lembro que qualquer matéria que a gente fizesse na Bizz, a repercussão imediata era: “Entrevista com o Miranda? [n.e. Carlos Eduardo Miranda, produtor musical e um dos jurados do programa Ídolos, do SBT] Quem liga? Capa com Keith Richards? Quem liga? Caetano? Ah, ninguém liga!”
Pedro Alexandre  Tenho muito essa sensação de que ninguém liga mais.
Ricardo Alexandre  Nesse último ano e meio, qual foi o disco para o qual as pessoas ligaram? Nos últimos dois anos?
Matias  Qual o disco que as pessoas estão esperando? Que era uma coisa que a gente tinha: “O próximo disco do fulano de tal”?! Foda-se! Pode ser o Chico Buarque, pode ser o Raimundos…
Pedro Alexandre  Isso valeria para música internacional também?
Ricardo Alexandre  Acho que sim.
Pedro Alexandre  Mas existe uma expectativa, esse mecanismo ainda gira.
Ricardo Alexandre  Ah, a gente lê no NME que existe… “O nooooovo do Klaaaaxons! Aguardadíssimo!” [risos]
Matias  Mas tem outra coisa que é o internacional visto aqui, porque se a música popular (brasileira) está diluída completamente, a gente ainda é colonizado pelos veículos de fora. Por exemplo: há um fenômeno gigantesco lá fora que é o Pitchfork, que a Wired chamou de “a nova Rolling Stone”, que é um fanzine online, um Gafieiras indie…
Pedro Alexandre  Esse é o futuro de vocês, por sinal. [risos]
Matias  Que começou do nada e agora está lançando bandas. Se a gente sabe do Clap Your Hands Say Yeah, do Arctic Monkeys, do Klaxons, foram esses caras quem descobriram. Aí, a gente aqui no Brasil… “Ah, todo mundo tá lendo o Pitchfork, então vou atrás…” Mas hoje até o Pitchfork está ultrapassado hoje, porque tem um monte de outros sites parecidos lá fora. E, no entanto, aqui no Brasil a gente só lê o Pitchfork.
Pedro Alexandre  Perguntei isso porque tenho uma ilusão. Separo os meus discos por ano, o ano em que foram lançados. E comparo os nossos de 2007 e os deles de 2007 e penso: “A gente está na pior situação.” Eles têm um disquinho que dá uma vontade de puxar e de escutar. Mas é ilusão, né? Tenho um disco nacional que saiu este ano que adoro, que é o do Fino Coletivo, mas ninguém vai ouvir falar disso. Ninguém naquele sentido, né? Agora, o Mika todo mundo ouve falar. Eu gosto mais do Fino Coletivo do que do Mika.
Matias  Se o Mika fosse brasileiro seria um Fino Coletivo.
Pedro Alexandre  A gente pode ir para o Cansei de Ser Sexy, que deixou de ser banda brasileira porque lá fora ninguém liga pra isso e aqui tem uma camada fortíssima que rejeita e quer a morte dele.
Matias  O Cansei é um bom exemplo disso. Porque, pela primeira vez, um artista brasileiro faz sucesso no exterior e não volta pra cá como a última maravilha. É a primeira vez que um cara vai lá e acontece; a bossa nova foi pra lá e não aconteceu.
Pedro Alexandre  E ninguém vai poder dizer que ele voltou americanizado, né? [risos]
Matias  O fato do Cansei voltar pra fazer um show no Brasil e ter uma legião de brasileiros esperando que o show seja ruim tem muito a ver com essa coisa… A internet é bem isso: as paredes caíram, mas essas paredes não são somente divisões entre gêneros, mas as pessoas estão entendendo como as coisas funcionam.
Ricardo Alexandre  É, mas por outro lado tem uma legião de pessoas esperando pra detonar, mas se o show for mesmo ruim e as pessoas detonarem? Pfif!
Matias  Tanto faz.
Ricardo Alexandre  Tanto faz! É essa sensação de “tanto faz” que inviabiliza o negócio pra massa. A gente começou falando da Bizz na hora em que o Matias não estava aqui, mas isso inviabiliza a repercussão dos textos da Bizz e dos textos do Pedro na Folha em 90… Que tempo que era aquele? [risos] No tempo que os animais falavam! [risos] Mas, tudo bem, é um outro formato.

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Jornalismo cultural
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