gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 16/38

Escrevi muitos releases de artistas sertanejos

Matias  E o que você ganha fazendo o seu blog?
Pedro Alexandre  Prazer e comunicação. Isso é importante, porque me comunico com as pessoas no meu blog. Na Folha eu não me comunicava. Eu era uma ilha.
Tacioli – Mas no blog você exerce a função de jornalista ou de um escritor?
Pedro Alexandre  Nenhum. Todos.
Tacioli – Aquele seu desejo de reflexão…
Pedro Alexandre  Tem horas que coloco alguma coisa porque faz tempo que não subo nada. Aí invento na hora. Coloco também as matérias da Carta Capital.
Rune – Você falou há pouco “Que sou idiota e não escrevo o release do Kid Abelha”…
Pedro Alexandre  Fui super educado, claro. [risos]
Ricardo Alexandre  “Eu sou um idiota, desculpa!” [risos]
Matias  O Pedro chorando, né?
Rune – Mas por que você não topa escrever esse tipo de coisa? O que te motiva a não escrever?
Matias  Vamos além, vamos além! E se fosse de uma banda que você gostasse?
Pedro Alexandre  Eu fiz do Erasmo. [n.e. Para o disco Erasmo Carlos convida – Vol. 2, de 2007] Por quê? Pelo mesmo preço que há dois anos eu teria ganho pelo Kid Abelha. Mas topei porque escrevi um livro chamado Como dois e dois são cinco [n.e. Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa), Boitempo Editorial, 2004], que ninguém fala, mas todo mundo fala do livro do Roberto Carlos que foi censurado… [n.e. Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo]
Matias  É que tu não falou da perna… [risos]
Ricardo Alexandre  Se não foi censurado não é bom! [risos]
Pedro Alexandre  Em meio a esse processo do Roberto Carlos ensandecido querendo proibir o livro, o parceiro dele (Erasmo Carlos) me pediu pra fazer seu release. Pensei: “Esse cara sabe que fiz o livro. O livro não é bonzinho e mesmo assim está me convidando pra fazer o release dele”. Escrevi isso no release, fiz um P.S.
Ricardo Alexandre  Muito bom.
Dafne – Esse P.S. é sensacional.
Pedro Alexandre  “Tô comovido pelo Erasmo me chamar…” Depois ele deve ter se arrependido… [risos] “O fato desse cara me chamar pra escrever seu release é, no mínimo, um reconhecimento do que escrevi no livro; ele sabe da existência e, de alguma forma, está legitimando.” Enquanto o Roberto proibia o outro livro, seu parceiro legitimou o meu de uma forma não muito clara. Mas aí eu tinha uma razão. Hesitei um pouquinho pra decidir porque pensei que iriam voltar a me pedir releases. Isso eu não queria, porque pode virar um modo de vida. Se eu fizer cinco releases por mês periga ganhar o que eu ganhava na Folha. Aliás, a Folha paga mal, alguém precisa escrever isso. Esse jornal todo-poderoso paga muito mal os seus jornalistas.
Ricardo Alexandre  Não foi pagando bem que ela ficou toda-poderosa.
Max Eluard – Mas não te constrangeria escrever o release do disco do Erasmo e depois, em uma matéria, lenhar alguma característica daquele álbum?
Pedro Alexandre  Não, mas não fiz isso.
Max Eluard – Mas hipoteticamente…
Pedro Alexandre  Vai ficar registrado aqui e talvez eu seja apedrejado por isso… [ri] Talvez eu mude de idéia, mas parto do princípio de não aceitar nunca. Mas não respondi a sua pergunta. É difícil elaborar isso, mas é que não quero fazer publicidade do trabalho dos outros. Claro que toparia fazer um release se gostasse do disco porque estaria falando a verdade, estaria sendo sincero. Mas será que nossos colegas estão sendo sinceros? Será que eles só escrevem releases quando gostam? Será que isso não vira um círculo vicioso?
Ricardo Alexandre  Posso dar um depoimento. Houve um período na minha vida em que passei um perrengue monstro e fiz muitos releases de artistas sertanejos, mas não assinava.
Pedro Alexandre  Isso é possível.
Ricardo Alexandre  Era um texto publicitário, basicamente.
Pedro Alexandre  Mas você não estava colocando seu nome…
Ricardo Alexandre  Não estava usando meu nome e nem usando o meu nome para avalizar um disco.
Pedro Alexandre  Teve um momento que recebi uns três convites e depois parou. Agora, depois desse do Erasmo, ninguém vai me pedir mesmo. [risos] Mas me perguntaram isso, de escrever o release sem assinar. Pensei: “Não tô precisando, não vai fazer diferença nesse momento”. Falei dez vezes X, mas não pensem que era uma fortuna…
Max Eluard – Que o X era tão alto assim.
Ricardo Alexandre  Na época em que geri a Bizz recebi muito convite pra fazer releases, mas aí é impossível porque estão usando a revista para avalizar um disco que está sendo lançado. E mesmo que se diga que “Não vou fazer a resenha desse disco. Vou passar para outra pessoa fazer!”, qualquer tipo de associação estará contaminada. Enfim, existem casos e casos. Não costumo satanizar muito o release, mas…
Matias  Vai que falta grana, né? [risos]
Ricardo Alexandre  Canalha! [ri]
Pedro Alexandre  Concordo plenamente com isso. Mas também me habituei a não fazer releases porque na Folha não podia. Quem faz, se alguém faz, é totalmente por baixo do pano.

Tags
Jornalismo cultural
de 38