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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 15/38

Jornalismo é publicidade

Pedro Alexandre  Eu vou falar dos anos 70, depois você completa com os 80 e aí a gente vê se chega nos 90, 2000. Nos anos 70 quem fazia jingle comercial era Rogério Duprat, Marcos Valle, Paulo Sergio Valle, Zé Rodrix…
Matias  Mutantes, né?
Almeida  Mutantes, da Shell.
Ricardo Alexandre  A música foi composta como jingle.
Pedro Alexandre  Eu demoli seu argumento. Todos eles fizeram, a gente não sabe. Tem gente que faz e não conta.
Ricardo Alexandre  Mas aí tudo bem. Isso é fazer música por dinheiro.
Pedro Alexandre  Você faz ao mesmo tempo. Você é um artista combativo e atuante…
Matias  Mas como era isso? O artista ia bater na porta da empresa?
Pedro Alexandre  O Renato Teixeira, autor de “Romaria’”, tem uma agência até hoje. O Ronnie Von tem agência…
Matias  Sim, mas como a coisa acontecia na época? O cara é um artista. Como ele era chamado para fazer o jingle?
Pedro Alexandre  Por exemplo: O Nelson Motta, em sociedade com Marcos Valle e André Midani [n.e. Diretor artístico de gravadoras como a Odeon, Philips e Warner, entre os anos 60 e 90], abriu uma agência de publicidade e comandava a rodinha da fortuna daquela época, porque a agência fazia jingles como “Hoje é um novo dia, um novo tempo” e colocavam músicas em todas as trilhas das aberturas das novelas. [n.e. “Um novo tempo”, tema de fim de ano da TV Globo, foi composto no início da década de 1970 por Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Motta; o nome da agência de publicidade era Aquarius] E aí é que está, erodia o prestígio de artista sério. Marcos Valle meio que se perdeu aí, Nelson Motta não sei se era um artista sério, mas… Quem se vende muito, depois paga.
Ricardo Alexandre  “Estrelar” foi muito pior para carreira dele que qualquer jingle. [risos] [n.e. Lançada em 1983, “Estrelar” trouxe versos aeróbicos como “Tem que correr / Tem que suar / Tem que malhar / Vamos lá” e foi recentemente regravada pelo Cidade Negra para fins publicitários]
Pedro Alexandre  Mas aí que está, ainda fazia parte, era Globo.
Ricardo Alexandre  Até porque a publicidade não era esse monstro, sabe? “Fez publicidade? Vendido!”
Max Eluard  Existia uma relação com a publicidade muito mais leve, não digo ingênua…
Pedro Alexandre  Todas músicas do Marcos Valle de 1972 a 74 expressam conflitos entre isso, quando falava “Não vou mais usar paletó e gravata”, mas estava fazendo isso do outro lado; ele usava terno e gravata.
Ricardo Alexandre  Até aí tudo bem; artisticamente você tem razão. Tanto que a contra-capa do segundo disco dos Mutantes tem um texto se justificando, inclusive, escrito pelo Nelson Motta. [risos] Mas a associação de publicidade com rios de dinheiro só começou nos anos 80 com o Washington Olivetto.
Pedro Alexandre  Nem sei porque a gente está conversando sobre isso. A música também é uma forma de publicidade. Se a sua música entra no gosto popular, ela vende e você pode ganhar rios de dinheiro com ela. E colocar “País tropical” na propaganda tal, vai vender o produto que a propaganda está apresentando. Jornalismo também é um tipo de publicidade: a gente divulga o disco dos outros. Parte do meu salário vem de’u fazer propaganda do disco do cara, independentemente de acreditar em sua qualidade. Faço o tempo todo propaganda do disco do cara.
Ricardo Alexandre  Um grande amigo meu, que trocou o jornalismo pela publicidade, dizia que no jornalismo ele não escrevia sobre o que queria, e na publicidade ele continua não escrevendo. Só que no jornalismo ganhava três mil; na publicidade ganha 50 mil. Então, ele falou: “Qual você prefere?”.
Pedro Alexandre  Vou reproduzir uma conversa que já tivemos em particular quando você me chamava para escrever as resenhinhas da Bizz. Eu pensava “Preciso pelo menos lutar!” e dizia “Ricardo, quanto você vai me pagar?”. E você dizia “X”. “X, Ricardo?” “É, não tem jeito.” Aí vinha o cara da Universal e perguntava: “Quer escrever o release do Kid Abelha?”. “Quanto vocês pagam?” “Dez X.” Para escrever o release eu ganhava dez vezes mais, e eu não topava porque sou um imbecil, né? Preferia escrever as resenhas da Bizz. Isso que falei para o Ricardo, “Só estou enchendo o seu saco e pedindo mais dinheiro porque eu preciso pelo menos registrar que é aviltante, que a minha profissão vale pouco se ela for exercida no lugar onde deve ser exercida. Se for exercida no lugar errado, se eu fizer propaganda assumida para o Kid Abelha na Universal, vou ganhar dez vezes mais”.
Matias  Isso não é uma coisa só do jornalismo cultural. É do jornalismo como um todo.
Pedro Alexandre  E isso não é só do jornalismo. Acho que na indústria farmacêutica…
Matias  O jornalismo, em especial, não se dá valor. Neguinho cobra R$ 50 para escrever três mil toques, saca?
Ricardo Alexandre  Eu ia dizer que é por isso que a indústria fonográfica está acabando, mas o duro é que a Bizz também acabou, né? [risos]
Pedro Alexandre  O jornalismo e a música são a mesma coisa. O raciocínio é o mesmo. Se é que as empresas jornalísticas estão desmontando é porque as gravadoras desmontaram; é o mesmíssimo processo. Olha para o passado que você vai descobrir o que vai acontecer depois…
Dafne  É pela mesma mentalidade corporativa ou algo assim?
Pedro Alexandre  Não por isso. É porque a internet destrói as paredes, como eu dizia no começo. Não faz mais sentido. Eu escrevo no meu blog para mim; não ganho um centavo por isso. Meu salário vem da Carta Capital. É um salário digno e eu poderia pensar “Por que vou ficar fazendo blog? Não ganho um centavo”.
Matias  Que é o que muita gente pensa, né?
Pedro Alexandre  Pois é, estão perdendo o bonde.

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Jornalismo cultural
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