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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 13/38

Nos anos 60, os festivais eram batalhas de singles

Max Eluard  É engraçado como se apropriaram desse termo “festival”. Festival do quê?
Matias  É um festival de música ainda.
Max Eluard  Mas na acepção que temos na nossa memória cultural, festival era o que se fazia nos anos 60, 70.
Dafne  Uma competição, você diz?
Max Eluard  É, de revelar coisas novas.
Matias  Mas Woodstock não era um festival?
Ricardo Alexandre  Não, necessariamente. “Conforme disse Zuza Homem de Mello, em português se permite a utilização dessas duas possibilidades para a palavra “festival”, tanto competitivo, quanto não-competitivo.” [risos]
Pedro Alexandre  Ainda bem que não têm mais os competitivos, porque não ia ser legal.
Ricardo Alexandre  Não fala assim que você foi jurado no festival da Cultura. [risos]
Pedro Alexandre  Você também! [risos]
Matias  Não tenho nada a ver com isso. [risos]
Max Eluard  Como vocês viram esse Festival da Cultura? [n.e. Festival da Nova Música Brasileira, TV Cultura, 2005]
Pedro Alexandre  Eu vi de dentro. [risos]
Max Eluard  Foi a pá de cal nessa história de festivais competitivos?
Ricardo Alexandre  Não.
Pedro Alexandre  Não dá para saber. Não tenho a mínima idéia, mas não deu certo.
Matias  O problema desse festival foi se apegar a um formato que não é, propriamente, para revelar talentos.
Ricardo Alexandre  Vou contar a história que eu e Pedro Alexandre Sanches conversamos nos bastidores do próprio festival. Foi assim: nos anos 60, não havia essa necessidade de revelar talentos novos da música brasileira. O Caetano Veloso era contratado Philips, uma multinacional holandesa, e tinha três discos nas costas; o Chico Buarque tinha programa na própria Record.
Pedro Alexandre  Todos eram contratados da Record, sem exceção.
Ricardo Alexandre  Todos eram contratados da Record. O Simonal era o cara que mais vendia discos. O Roberto Carlos defendia música no Festival e não havia essa coisa de colocar um bando de artistas desconhecidos que ninguém iria vê-los nem se arrastassem para lá.
Matias  Era como se a Trama fizesse um festival dela. Qual o melhor artista da Trama?
Ricardo Alexandre  O que havia era um concurso de canções. Essa era a questão dos festivais dos anos 60.
Matias  A novidade mesmo eram as composições.
Ricardo Alexandre  Exatamente. Era lançamento de singles. Era a batalha de singles! Então seria a mesma coisa se hoje a gente ligasse para a Nação Zumbi, para o Max de Castro e para o Mombojó e pedisse para eles comporem músicas para um festival.
Pedro Alexandre  E eles até tentaram fazer isso ali na Cultura. Do jeito deles, procurando outros artistas, não exatamente esses que você citou, mas alguns outros: Lenine, Chico César… Pelo gosto deles teria sido isso. Mas como os jornalistas não querem mais trabalhar nos jornais, o Chico César não quer participar do Festival da Cultura.
Matias  Fui jurado de uma das etapas do Rumos, do Itaú Cultural. Reuniu 12 pessoas para avaliar artistas novos e tal. Aí sempre que ia escutar a música de fulano, um cara que manja mais de choro, uma mulher que manja de música erudita, o Rappin Hood, o Kassin, e aí um dos jurados de vez quando levantava mão e falava assim: “Esse cara é o melhor bandolinista do Nordeste! Ele é foda, é do caralho! Dois discos cinco estrelas! Vamos ouvir”. E todo mundo ficava olhando para o cara. Aí quando começava a música, ele abaixava a cabeça com aquela cara. Por quê? Porque inscrevia uma música que tinha cara de Itaú Cultural. E aí o cara que poderia ser revelado em um evento desse não se inscreve porque não quer estar associado a isso. Então, por mais legal que seja a intenção do Itaú Cultural, de mapear uma nova produção, ele está falando com um público que já é o público dele, bem ou mal isso já é um outro nicho.

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Jornalismo cultural
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