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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 11/38

A Tim ganha 60 capas de caderno cultural por ano

Max Eluard  Em qualquer revista ou jornal com um seção de cultura tem três ou quatro discos indicados. E sempre pensei o que fazia com que aquele veículo indicasse aqueles três ou quatro discos. Aí vem a pergunta: qual a relação da indústria fonográfica com os veículos de comunicação?
Pedro Alexandre  Olha, tenho de confessar que já escrevi aquelas resenhas pequenas de tanto que a pessoa ligou, e isso até recentemente, não somente na Folha. Você pensa que ela vai parar de ligar? Tem umas que ligam tanto que eu não escreveria nem se eu amasse o disco; ficaria com raiva. Estou fazendo uma fabulazinha para falar que, na verdade, os interesses da indústria fonográfica, cultural, musical, sei-lá-o-quê, permeiam isso de cabo a rabo. “Nem que seja pela rebeldia, vou falar desse disco porque é independente…”
Ricardo Alexandre  Exatamente, mas permeiam com o mesmo peso de muitas outras coisas, né?
Matias  Já foi mais enfático.
Ricardo Alexandre  Já foi porque a indústria era maior, os assessores tinham dinheiro para fazer interurbano.
Max Eluard – A Bizz tinha como anunciante algum selo, alguma gravadora?
Ricardo Alexandre  Não.
Max Eluard  E isso era uma questão editorial?
Ricardo Alexandre  Deveria ser. A Playboy quando começou nos anos 50 baniu todos os anunciantes de gel para cabelo e coisas que geralmente anunciavam em revistas pornográficas porque queria se descolar disso. Se a gente tivesse a opção de não querer gravadoras, seria uma boa tática.
Matias  Vocês tinham de fazer como a Trip, que nunca teve anúncio de cigarro. Uma vez o Paulo Lima [diretor da revista] saiu de uma reunião com a Souza Cruz e falou para o Sérgio, que era o diretor de publicidade da época: “Existe a possibilidade de algum dia a Souza Cruz anunciar na Trip?”. “Depois dessa reunião, não”. “Então, a partir de agora vamos proibir anúncio de cigarro na Trip.” [risos] E ai o cara soube valorizar uma cagada, entendeu?
Ricardo Alexandre  “Nós proibimos a indústria bélica de anunciar na nossa revista. Somos pela paz!” [risos]
Matias  “Não temos nenhum vínculo com as majors.” E isso adianta?
Pedro Alexandre  Algumas delas não ficaram com dor-de-cotovelo, alguma Souza Cruz?
Matias  Alguma Souza Cruz? Tem duas, né? Você acha, ainda mais depois que eles começaram uma campanha anticigarro.
Ricardo Alexandre  O fato é que as gravadoras não tinham dinheiro para anunciar também.
Matias  Com certeza.
Pedro Alexandre  Gente, desculpa, assunto polêmico. Todos nós já fizemos isso, já cobrimos o Tim Festival, que ganha toneladas de capas. Alguém acha que a gente faz aquelas matérias porque quer? Quem vem nesse ano?
Matias  Arctic Monkeys.
Pedro Alexandre  A gente faz (aquelas matérias) porque Arctic Monkeys é legal? É a Tim e é o jornal. E eles nunca vão chegar na gente, a gente não vai saber disso. A Tim ganha 60 capas de caderno cultural por ano, a Tim que é telefone!
Ricardo Alexandre  Isso é importante ser dito. Mas há de ser dito também que eles fazem um bonde de alegria com os jornalistas, levam todos para o exterior para cobrir os festivais europeus e escrever sobre as bandas. Logo, compare com o tamanho do espaço.
Matias  Ninguém pediu nada, mas na linha fina da matéria “Artista tal vem para o Tim Festival”. O cara não precisava ter escrito Tim Festival e em nenhum momento a Tim vai virar para ele e falar “Aí, meu, a gente só está levando você aqui para escrever o nome do festival”.
Max Eluard  É um acordo de cavalheiros.
Matias  É mais subliminar ainda. “Vou fazer e garanto a minha credencial. Vou ter (uma entrevista) exclusiva com o cara.”
Ricardo Alexandre  O que o Pedro falou é fantástico! Mas será que o espaço ocupado na página que o leitor vai abrir em seu café da manhã seria o mesmo se o cara não tivesse viajado para Birmingham, saca?
Matias  Ou se o artista viesse para o Brasil?
Ricardo Alexandre  Sim.
Matias  Se o Arctic Monkeys vem para o Brasil fora do Tim Festival, ele não teria uma cobertura tão intensa. Está certo que é um festival, tem várias bandas ao mesmo tempo, mas com certeza ganha uma proporção muito maior.
Pedro Alexandre  E o leitor (do nicho) é totalmente cúmplice disso. Porque gosta, fica fã, compra o disco, vai no festival. É o auge! São Paulo e o Rio ficam em polvorosa quando se conclui esse processo.

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Jornalismo cultural
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