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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 10/38

Não há notícia no fato do Caetano lançar um disco

Max Eluard  Entre polêmicas e amizades com festas coloridas, qual é o papel do jornalista musical?
Matias  Acho que o mesmo papel do jornalista em geral, descobrir coisa nova, apurar e levar a informação ao leitor.
Pedro Alexandre  A minha ambição, além disso que você falou, é refletir sobre as coisas. Sei lá que autoridade a gente tem, como a gente consegue ou não decretar, julgar e falar “Compre esse disco. Não compre aquele outro!”, pra mim isso tudo é ultrapassado… Agora, falar…
Max Eluard – Revelar, né?
Pedro Alexandre  Viajar na maionese mesmo. Aí que está, isso cabe bem em uma revista, como a Bizz ou como a Rolling Stone, mas não cabe tão bem em um jornal, como Folha, Estadão. Não sei se essa é uma missão do jornalismo, mas como você perguntou, eu respondi. Gostaria de fazer isso, fazer sempre uma matéria que cause algum tipo de reflexão e eu próprio refletir com ela. A informação tem isso, mas ela já está em tudo quanto é lugar. Não tem onde eu não ache qualquer informação.
Tacioli  Será que esse público que te lê é igual à você que tem todas essas ferramentas?
Pedro Alexandre  Até um tempo atrás não era. Ele tende não a ficar igual , mas com esse boom de internet, o aumento da curiosidade e o aumento de circulação, ouve-se muito mais música hoje, como você disse. Ouve-se porque se pega de graça, porque ela é mais acessível. E acho que está acontecendo o mesmo fenômeno com a informação, com o jornalismo. A gente coloca células de informação em blog, não forma um texto compacto com começo, meio e fim, mas é a mesma coisa que o jornalismo sempre fez.
Ricardo Alexandre  Eu vejo um dilema nessa coisa de informar e de analisar: primeiro é aquele jornalista que tenta revestir um lançamento de um disco com o mesmo impacto jornalístico de um avião que cai ou de um ministro que é derrubado. Desculpa, cara, mas disco sai todo dia, muitos inclusive. Não há notícia em si no fato do Caetano Veloso lançar um disco novo; ele vive disso. Ele não faz nada além do trabalho dele. Tem uma grande parte dos jornalistas musicais que trata lançamento de disco de uma maneira burocrática, ou por incapacidade ou por convicção que essa seja a maneira imparcial de falar de lançamento de disco. “Fulano gravou no estúdio tal”.
Pedro Alexandre  Isso você pode ler no encarte do disco.
Ricardo Alexandre  [ri] É.
Matias  Como release.
Ricardo Alexandre  É, exatamente, e O.K. E tem uma grande parte dos jornalistas que tenta extrair prospecção, tenta extrair análise social, cultural ou seja lá que tipo de coisa tem dentro disso. Mas vejo que há outras maneiras de você informar – e estou falando mais como um editor do que como repórter –, como a Uncut que tem uma coluninha que apresenta uma música boa de um disco ruim e música ruim de um disco bom. Meu, sensacional! Para mim isso é uma informação valiosa que é passada em dois por dois na página, é uma informação de fato e é uma análise de fato.
Max Eluard – Tem poder de revelar alguma coisa, né?
Ricardo Alexandre  Claro!
Matias  Quando a gente fala em análise sempre pressupõe uma coisa longa, extensa, que o cara vai ler durante horas, e na verdade basta somente isso.
Pedro Alexandre  Outro dia o Inácio Araújo, crítico de cinema, escreveu em seu blogsobre o filme Cão sem dono [n.e. Filme de 2007 dos cineastas Beto Brant e Renato Ciasca], se não me engano. “Eu não sei o que eu achei desse filme e aqui não sou obrigado a fingir que eu sei ou o que eu achei desse filme.” [risos] Achei sensacional! Pensando bem, eu já escrevi sobre tantos discos que depois de ouvir três vezes tinha de enfrentar um pedaço de papel e transformar aquilo numa opinião. Muitas vezes saía, e outras vezes, não, mas havia um tanto de mentira naquilo. Para vários daqueles discos eu não tinha porra de opinião nenhuma e nem queria ter!
Matias  Você é obrigado a dar a nota.
Pedro Alexandre  Quando abri o meu blog disse: “Na Carta Capital não vai ter crítica de música, então vou colocar as críticas de música aqui”, mas não tenho a mínima vontade, não tenho vontade de inventar o que eu acho.
Matias  Mas nunca acontece…
Pedro Alexandre  Então, mas quando acontece é especial. E, nesse sentido, para que é preciso a seção de disco da revista ou do jornal? Realmente quem está a fim de ler? A gente está a fim de fazer aquilo no fundo, de ter opinião sobre o que você tem e sobre o que não tem?
Ricardo Alexandre  Isso era uma das coisas que a gente pensava lá na Bizz. Avaliando hoje, um dos grandes erros foi ter um apego romântico e tributário ao formato que a revista teve nos anos 80 e 90. Mas se eu não fosse tão apegado assim, uma das coisas que eu faria, e seria bom fazer, era acabar com a seção de resenhas.
Matias  Eu te falei isso, né? [risos]
Ricardo Alexandre  É, eu sei, mas a gente sempre avaliava.
Dafne  Engraçado como as pessoas geralmente gostam disso.
Pedro Alexandre  Imagine a choradeira se terminasse. Não iria agradar ninguém.
Ricardo Alexandre  Exatamente. Na hora de editar, por favor, dêem destaque ao que Pedro está falando. [risos]
Pedro Alexandre  Na verdade isso não foi um erro, porque não foi um erro que a revista cometeu, não tinha solução. Você tomou uma posição e desagradou a outra metade do Maracanã.
Ricardo Alexandre  É isso aí.
Pedro Alexandre  É Marlene versus Emilinha.
Ricardo Alexandre  Exatamente.
Pedro Alexandre  Se você tivesse acabado (a seção) talvez causasse mais barulho porque as pessoas ficariam chocadas. [risos]
Matias  E talvez o motivo do fim da Bizz seria o fim da seção de resenhas, saca? Quando dá errado, qualquer coisa é motivo.
Ricardo Alexandre  Obrigado, Matias.

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Jornalismo cultural
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