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De repente, a Argentina Desde q o Corinthians contratou o argentino Tevez, o caráter argentino anda mais presente na minha cabeça. Tem um espírito deles q ficou mais consciente aqui pra mim.
Sempre eu achei estranho o tanto q o Brasil não cruza com os vizinhos. Eu até entendo q a Bahia ou a Amazônia ficam longe de Buenos Aires (até mesmo culturalmente, se a gente for pensar), mas pra a gente aqui do Sudeste e do Sul tem uma proximidade razoável. Mesmo assim, parece longe. Se vc for ver, não tem tv nenhuma do Mercosul na grade da tv a cabo. Acho cruel. Do mesmo jeito, se eu estivesse em Roraima queria ter acesso às coisas da Venezuela, do Caribe. Sei lá: mera geografia, penso eu (desculpem eu estar raciocinando analógico num tempo tão online, tão sem-fronteiras: juro q não é preconceito nem saudosismo, só tou matutando). De todo modo, eu queria falar da Argentina. Foi o primeiro país q eu vi fora do Brasil, em 1972. Meu pai levou a gente. Depois fui mais umas várias vezes, dos mais diferentes jeitos, até de trem... Um país estrangeiro, aqui do lado (tou em SP), Buenos Aires um lugar bem diferente, tinha metrô, e, se eu bem me lembro, em algum momento tinha democracia (pque nessa época a ditadura aqui tava no auge), eu lembro de ver muitos tipos de revistas de tendências diferentes na banca de jornal, coisa q no começo dos 70 não tava rolando aqui de jeito nenhum. Eles falando aquele espanhol meio italiano, paletós aos montes, sempre tratando a gente meio mal, num primeiro momento (até a conversa engatar, só depois de um tempo, qdo dava tempo, é q começava a troca de figurinha). E as trocas: uma vez q eu fui lá tava tocando muito Ney Matogrosso (“Bandido”), eles adoravam Toquinho e Vinícius, Gal, eu lembro de ouvir muita música brasileira lá. E, de vez em qdo eles se queixando q a gente não ouvia nada argentino. Na música não tem jeito, a gente tem a auto-estima muito alta. Por outro lado, eu lembro tbem qdo era adolescente de ver em entrevista o Piazzola se queixando q era mais compreendido no Brasil q na Argentina. Outra coisa da gente aqui com música é não ter medo do diferente (tou falando do povo, não das gravadoras...). E era raro ter notícia deles nos anos 60/70. Alguma Mafalda chegou depois na minha mão (foi assim q eu aprendi um pouquinho de espanhol), algum tango em algum restaurante regional ou boate ou rádio AM de madrugada. Tinha tbem um tal de Trio Galleta (eu tinha o compacto “I’m so happy”). Mas, principalmente era o futebol q me dava uma idéia, mesmo sendo criança, do q fosse a arte argentina (é bom lembrar q eu nasci muito depois do velho tango, e ainda era muito novo e alheio pra entender – ou gastar um tempo com – aquelas pirações do Borges, do Cortázar). Tinha uns tantos jogadores argentinos aqui, sempre muito especiais, se movendo noutra velocidade, noutra língua, noutro pathos. É, pathos. Pque o futebol tem pathos, e o argentino traz ele à flor-da-pele. Eu via aqueles jogadores muito branquinhos (negritude zero na pele e no espírito…) sempre com a bola grudada no pé, pensando curvilíneo, chutando curvilíneo, olhando curvilíneo, um certo garbo, uma certa indisciplina (não aquela q é irmã da violência, mas aquela q é irmã da arte, q por sua vez é irmã da agressividade, não daquela q é irmã da violência, mas daquela q é irmã da inquietude, do tesão, da criatividade, do amor pelo diferente, da curiosidade), tipo: ganhar é bom, mas se divertir é melhor... E o Corinthians não contratava estrangeiros, então ver um argentino jogar se enchia mais ainda de mística, pque jogavam em times cujo pathos eu não dominava... E tbem aquela coisa guerreira. Na escola os professores começavam a ensinar a gente q aqui nunca teve muita revolução, quase sempre as coisas se resolviam no conchavo, no gabinete, no café-com-leite. E eles sempre lá, na Plaza de Mayo, batendo panela, ou no Maracanã, chutando sem dó a nossa canela. E em comum, tanto futebol, tanta ditadura, e os Estados Unidos sempre em algum lugar da história da gente. Da cabeça da gente (pro bem e pro mal). Bom, o fato é q a Argentina sumiu da minha cabeça, sumiu da minha frente por muitos anos, tbem não fui mais lá. Só aparecia de vez em qdo, futebol, o Galvão Bueno metendo o pau neles, ou então no noticiário por causa de alguma megacrise econômica em q eles chegavam ao fundo de algum poço. Até q começou a chegar filme argentino aqui. Pombas, q cinema bárbaro eles fazem… Filmes maravilhosos com orçamento baixo, histórias fortes, atores fabulosos com cara de gente comum, imagens simples e surpreendentes: soco no estômago. Q nem poesia. Alguns desses filmes q passaram por aqui nos últimos anos me fizeram respirar melhor, oxigenam, espantam. O tanto q o futebol deles é curvilíneo e negaceante e enreda a gente, o cinema é direto, latino, sangrento (não o sangrento q é irmão da violência, mas o sangrento q quer dizer sangue quente nas veias, o coração se expressando sem muita frescura). E esse cinema q chega (pelo menos pra mim) passa a sensação de um povo se revendo: tomou porrada, embarcou em muita onda, entrou pelo cano, q se autoanalisa com algum humor e crueza, catando caco, mostrando coragem. Enfim, o argentino baixinho do Corinthians e os poucos filmes q chegam aqui me fizeram abrir o olho pra a poesia do vizinho. Uma civilização diferente da gente (e põe diferente nisso), mas no mesmíssimo barco q a gente (e põe mesmo barco nisso). Em suma, a gente tem assunto q não acaba mais… É isso, fui, abraço. Mauricio ps 1- sobre pathos argentino, confiram no Sportv, sexta de noitão, o programa do Maradona “La Noche del 10”. Sem julgamento, só confiram: pathos... [ n.e. Fora do ar desde que terminou seu contrato, o programa – um dos grandes sucessos da TV argentina de 2005 - deve retornar ainda neste ano. ] ps 2- um belo site sobre cinema argentino q eu encontrei tentando descobrir mais sobre os atores, filmes, diretores, confere: Cinenacional. MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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