Memórias: violões
Depois de velho, resolvi aprender violão (velho, numas…). E uma coisa tão simples dessas, acabou me dando muito assunto. Que eu reparto com vocês.

Bom, como a maioria dos leitores do Gafieiras deve saber, eu sou músico e não sou criança. Trabalhei no Mulheres, fiz um monte de coisa, trilha, arranjo, disco, produzi outros artistas, compus miles músicas. Mas nunca soube tocar violão. Sempre compus de cabeça ou no computador. E sempre me dava um certo semjeito. Ir na festa, no luau, no sarau, e eu lá no canto, macambúzio, nada de violão. Compor de cabeça faz a maior diferença, as músicas acabam ficando muito loucas, abstratas até pro padrão do pop de rádio (que é o sonho, né?). Porque a cabeça é mais maluca que um violão, e no violão, pelo que eu tou vendo, às vezes você compõe com a mão, ou até com a mão no coração. Tá me parecendo que tocar violão é uma das coisas mais antigas do mundo, eu acho. E ajuda a cantar solitariamente a solidão, coisa que eu acho vital prum compositor.

Então, pra mim, uma das coisas mais antigas do mundo se trata de uma tremenda novidade.

A ficha caiu assim: um dia, anos atrás, eu tava voltando do Litoral pra SP, na estrada, com o rádio do carro (como sempre) ligado, caçando alguma estação legal. Pois lá em Santos tinha uma rádio chamada Enseada FM (não tem mais, virou rádio evangélica, nada contra, mas virou…), uma rádio de rock, feita por uma galera muito boa, programação maravilhosa, uma rádio de rock menos estressada e comercial do que as de SP. Nesse tal domingo à noite eu peguei a Enseada no carro. Eu dirigindo, noite, a galera já meio apagada no carro, trânsito de fim de fim de semana. E começou um programa com o Johnny Cash, aquele velho e maravilhoso countryman americano, que morreu ano passado, se eu não me engano. O cara é um clássico. Muitos hits. O Elvis e o Dylan sabiam bem quem ele era. E a história do programa é que ele, já bem velho, catou a viola e falou: “vou pra a estrada”. E foi. Um velho animal do pop, violão de aço, estrada, canções e histórias pra serem contadas, antes, durante e depois das canções.

Eu não ouvi aquele programa, eu vi aquele programa.

Não só pela música singela e poderosa que sai de um músico vivido e de seu instrumento, mas pela força da simplicidade, pela força que tem alguém contando uma história, a respiração disso.

Fato é que eu fiquei com aquela história na cabeça, ruminando. Devem ter se passado bem quase uns 10 anos, sei lá. Eu tou sempre caçando simplicidades, simplicidade: o Jorge Ben, o Chaves, qualquer coisa primária, ancestral, sagrada. E pensei que talvez uma boa coisa pra quando eu ficar velhinho seja cair na estrada tocando baladas e contando causo (ai que inveja do meu amigo Paulinho Freire...). Como ainda tem uns par de ano pra eu ficar velho, resolvi tentar estudar o violão, pra garantir a minha aposentadoria. Ou melhor, a minha não-aposentadoria. Comecei na raça, lembrando uns exercícios que o André me mostrou quando eu conheci ele, e ele tentou me ensinar violão. Dar uma amolecida na mão, conhecer o braço, levadas na mão direita. Tou estudando bonitinho, vou no psor, mi, lá, ré, coisa e tal. Tou perdendo o medo desse instrumento intrincado. Devagarinho, vai rolar...

Mas nessas, o que foi mais interessante é que eu fui ouvir violão por aí. Por aí entenda-se internet, que é o jeito mais rápido de ouvir os violões mais variados, fuçar, conhecer maneiras de tocar, de soar, harmonias, levadas. E interessado em coisas bem simples, acabei caindo no Bob Dylan e outros baladeiros, pra começar. Dylan velho eu tinha ouvido sempre de orelhada, fui ouvir agora com curiosidade e caí pra trás: aquela aparente tosqueira do violão e gaita dele tem um rigor incrível. Nada fora do lugar, uma baita força expressiva naquele violão de poucos acordes e aparentemente poucas variações. Primeiro de tudo, o espanto de ver o que se pode fazer com três ou quatro acordes. E some-se a eles um bom contador de boas histórias. Voltamos pro Johny Cash...

E eu fui procurar levadas. E aí vem o Jorge Ben, e aí vêm as batidas básicas de bossa. A escola brasileira. Comecei a puxar pela memória shows que eu vi quando era adolescente, quando ainda não era música, quando shows eram coisas cheias de mistérios. E quanto show só de violão eu vi. O Macalé, que outro dia vi um show, um toque tão suave que se ouvia os harmônicos todos de cada nota. O Gil intrincado e inventivo dos anos 70, 80, sei lá. O João Gilberto, minimalista e rigoroso feito uma sinfônica de bolso, o Dorival Caymmi, que quase é um sujeito fazendo trilhas sonoras pra canções que são filmes. E o Djavan, um violão absolutamente rítmico, um jeito brasileiro de ler a pronúncia do jazz. Maneiras de tocar violão brasileiras. E Garoto e VillaLobos e Egberto e o Yamandú, e tantos e tantos outros. E não tem como não pular pra a guitarra. E me vêm à memória o Lanny dos discos dos tropicalistas e também as levadas de guitarra da Jovem Guarda (vai ouvir “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”...).

Mais uma vez o Brasil é rico, irritantemente rico, e sem deixar de ser simples.

Continuo fuçando. Coisas com violão de aço, que americano sabe fazer bem, baladas pop. Cat Stevens, Simon e Garfunkel. Parece que a música de lá é uma música bem mais simples que a nossa, mais singela. A gente tem uma cultura curvilínea, tipo o tal olhar oblíquo da Capitu: aqui as coisas são e não são, a gente sempre toma um drible se for tentar entender a realidade sem usar de malícia. E eles têm o blues, que escravizou toda a música branca, seja pela blue note, seja pelos 32 compassos. A canção deles bebe ali, tá sempre com uma corrente na canela... (o que não quer dizer que não seja maravilhosa) Tá no standard, tá no country, tá no rock, no pop. Nesse sentido, a canção brasileira voa que nem um passarinho mesmo, aliás, que nem a enorme variedade de passarinhos que tem (ainda tem?) aqui: muitos formatos e caminhos e harmonias e cores e maneiras de cantar.

Bom, eu tou só tocando no assunto. Aliás, chamando assuntos e nomes pra vocês fuçarem por aí. E uma sugestão tonta, nesse tempo da informação tão excessiva em que a gente de repente nem sabe mais o que é que importa ser ouvido: dêem uma nova ouvida nessas velhas coisas banais feitas ao som do instrumento mais comum do mundo. E fiquem imaginando como gentes simples fizeram canções as mais simples com uma força (emocional e estrutural: estética) danada. Que resiste ao tempo, às velocidades, às modas, aos comércios.

Fucem, e me contem.



abraço

Mauricio



P.S. – E quem quiser xeretar ainda mais violão, mais distante do óbvio pra nós, brasileiros e ouvintes de rádio, vai fuçar Portugal, Espanha, países árabes, música celta. Muita coisa legal pra ser ouvida.


MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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