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Eu torço pro Corinthians Vc sabia q nos últimos 5 anos foram 4 mil jogadores? Jogadores de futebol? Foram? Se foram.
...................................................... Faz de conta q eu não gostasse de futebol. Mesmo assim acho q já era pra respeitar. Que nem a cozinha, a língua falada (a q se usa pra conversar, converter), sotaques, a maneira de contar as histórias, a musicalidade. O Noel Rosa dizia isso, são coisas nossas. Fora eu ser corintiano roxo (rouxo, groucho), eu respeito o futebol. Grande forma de arte, forma de arte grande, comédia grega, drama, dramas, jogo de damas, teatro ancestral. Ou vai me dizer q só pelo jeito do cara se mover no campo já não dá pra a sacar o q ele tá sentindo, se ele tá ganhando ou perdendo, se tá nervoso, se tá com medo? Maracanã, 1950: coisa de pathos… E assim por diante. Arquétipos e sentimentos básicos: teatro. Perguntem pro Nelson Rodrigues: coisas nossas. ........................................................... Eu torço pro Corinthians. Pro Corinthians ainda existir. Um dia. ............................................................ Há 27 anos ele quebrou o tabu de 23 anos sem ganhar campeonato paulista. Já sem Rivelino, ainda sem o Dr. Sócrates. Palhinha, Geraldão, Basílio, Vladimir. Teatro. Enredo? O filho pródigo era o Rivelino. Ele foi embora enxotado, seu coração partido, pouco antes da festa. O peso nas costas, o peso de não ter perdão. Já o doutor, cabeça mais fresca, ganhou um monte de coisa, em 77 tava tranquilamente tomando uma cerveja no Pinguim. Aliás, uma não, várias: se eu morasse em Ribeirão fazia a mesma coisa. ............................................................ De todo modo, 23 anos na fila é o de menos: tem q ser corintiano. Alguns são, alguns não são, alguns ficam sendo. Ronaldo, Zezão Maria, Ditão, Luis Carlos, Vladimir, Tião, Rivelino, Viola, Gil, Zé Elias, Marcelinho, Sócrates, Parreira… A merda é q alguns deles vira-e-mexe aparecem (ou apareceram) vestidos com trajes estranhos, inimigos, alviverdes, tricolores, alvinegros. Inexorabilidades. Traição? Teatro? Então era tudo Brecht? ............................................................. Toda religião tem seu altar, seu ritual, seus sacrifícios. Pra nós tem q ser no Pacaembu, tem q ser difícil, tem q ser sofrido: tem q ser corrupto e incompetente, pra deixar sem argumento qualquer bom moço (esses moços, pobres moços…). Tumultuado e precipitado: emocional. Sabores fortes: ir até os infernos e voltar, toda quarta e domingo. Wadih Helu, Vicente Matheus, Alfredo Trindade, Duailib, Citadini, a Hicks Muse, e agora os russos querendo lavar os dólares: tem q ser bandoleiro, tem q ser insano. Mundano mas não cidadão do mundo: certas coisas se resolvem mesmo é no bairro, sempre vai ser assim, nada de Libertadores da América. Doméstico e trágico, feito aqueles contínuos de repartição do Nelson Rodrigues. Teatro, de novo? ............................................................ Tou falando de paixão, teatro. Talvez eu esteja falando mesmo do fim do mundo, das coisas, das paixões, do teatro. Até o ódio tá automático hoje, dá só uma olhadinha na CNN pra ver. Quando eu era pequeno minha avó me falava q o mundo ia acabar em fogo e água. Às vezes dá a pinta q vai acabar numa brochada, numa indiferença qualquer, uma distração: oops, escapou… Mas o q me encafifa (fifa?) mesmo é porque (pra quê) hoje, século 21, tem q ser medíocre. Tipo: depois desses séculos todos, será q já não dá pra acordar e a segunda-feira ser uma coisa boa? Tipo: passam-se algumas semanas e q fim levou a Grécia (não a do teatro), o Once Caldas, o Santo André? Q saco… O império do medíocre. E os heróis, os loucos, as grandes emoções coletivas (como são? comoção? q diabo é isso?), tudo, tudo, tudo tem q virar padrão, tergal, sala-cozinha-banheiro, sorriso. E pensa q na arte não é assim? Na falta de algum mestre maluco visionário kamikaze, vai quem estiver mais bem vestido no momento… Santo André, Grécia, Once Caldas… Um verso, né? Um verso de samba-exaltação, um haicai. É a água daquelas represas de Furnas. Qdo não chove ela baixa, a gente vê todos os tocos, todas as pedras, todas as torres de igreja das ex-cidades alagadas. Ou: os três ali tão na deles, imóveis por todos os séculos, fazendo tudo o q sempre fizeram, eles têm a mesma ordem de grandeza q sempre tiveram. Os gigantes fracassam e sucumbem, fiascos homéricos, o tombo é de muito alto. E o tempo é outro: Liliput. Viva os integralmente médios, os anões do orçamento (lembram?), os orçamentos enxutos!!! Morte aos gigantes e aos dinossauros: isso é Darwin, né? Coisas nossas. No mundo da cigarra e da formiga, falemos de competências médias, padrões. Ter atitude e crescer dentro da competição. E ai da cigarra q não virar formiga, pois a indústria não tá aí pra aturar particularidades, excentricidades, mazelas do espírito, angústias de qualquer espécie. Ai da cigarra q não voltar pra marcar… E ai da formiga q não parecer cigarrra, pois a indústria não tá aí pra aturar o cinza, o comum, o certo, o senso, um certro senso comum: isso não vende.Tá vendo? Q contrasenso… Um músico pop falando mal das competências médias, padrões, a raiz da sua linguagem. Desse jeito ainda vou morar no mato, sem rádio e sem notícia da terra civilizada (calcinada, plantada de soja de Jundiaí ao infinito). Mas enfim, a criatividade finalmente tá ao alcance de todos (viva!), tem jeito pra fazer ela (viva!), pra consumir ela (viva!), o software dela, a loja dela (viva! viva!). O jeito de amar ela (viva! desculpem por isso, foi por querer…). Mistura aí folclore com cosmopolitismo. Uma pitada de tecnologia de ponta com raízes as mais puras. Toma uns elixires da juventude, usa tênis, esteróides, silicone, compressor valvulado: roots e loops. Perigo nenhum: é só correr pro abraço… ...................................................... Perigo é: amar? Não levar preconceitos em conta? Se entregar: diga isso, Lindomar, eu vou tirar você desse lugar. Pontapés no óbvio? Óbvio q não. Na grana gorda: não! No sim: não!!!! Mas tudo é cada vez mais menos: no fundo o Guevara tá mesmo certo (parece, né? q vcs acham?): resistir sem perder a ternura. Modernizar, profissionalizar, vestir o terno. Mas, pombas, precisa mesmo não sonhar? Será q criar é tão prejudicial assim à saúde? Precisa mesmo ter medo do amor à camisa e sair beijando o distintivo por qualquer 40 dinheiros? Me comprometa, se comprometa… Se o Corinthians ou a música pop ainda existirem daqui a um tempo, vou pedir pro meu neto me levar no Pacaembu num determinado domingo, vou de bengalas, cachecóis, gavião, fiel, a camiseta com a cara do Bob Marley q eu ganhei em algum show de DCE. Futebol e música, futebol é música, q linda arte em extinção, como os motores a explosão, como o Homo sapiens. Nelson Rodrigues, João Saldanha, Jimi Hendrix, Ditão, Raul, Noel: e não nos deixemos levar por nostalgias de jeito nenhum, rancores de jeito nenhum. Coração e pélvis abertos, porque quando menos se espera surge de novo um Elvis, à revelia dos fatos e argumentos. Mas às vezes uma andorinha alvinegra se sente muito só: e os estádios andam meio vazios. De alma e de almas. Ser profissional do amor à camisa… q profissões mais esquisitas (exquisitas?) essas de músico, boleiro, professor, alfaiate. Acreditem, eu morro de saudade do futuro, eu não suporto mais a saudade de chegar lá, não sei bem o q é, mas eu faço minha mandinga na arquibancada e torço pro Corinthians um dia ainda existir. Quem sabe? MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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