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Memórias duma orelha insone Matraca de vendedor de biju (a reverberação da matraca nas paredes das casas do bairro). Sirenes e apitos: “o apito da fábrica de tecidos”, diria o Noel Rosa. Olha só: minha avó morava no Belenzinho, muito apito por ali. E chaminés. As grandes, de tijolo, um quadro natural de SP (foi…), típicas. Mas tinha umas de metal que eram mais que tudo apitos, polifônicos e tristonhos. Whistles, em Manchester, a maneira britânica de fazer o blues, o blur… Minha outra avó morava em Campinas. Ao meio-dia tocava uma baita sirene, longa, densa, infalível, acho que da oficina da ferrovia, ali perto. Avós. Geladeira velha no meio da tarde quieta em casa de avó. Passos no chão de madeira com porão em baixo, o som grave da peroba pisada, a cristaleira balançando, agudos. Bola de borracha batendo em paredes próximas e paralelas: um acorde familiar, uma tríade maior, começando lá do grave, às vezes eu ouvia até a nona, embora não soubesse disso. Sinto falta dessa nona. Nonna.
Roubei um som, e ele me é útil: um velho telefone, pelo menos quando ele toca o barulho é de metal, é matéria, coisa analógica. O pessoal em casa odeia: coisa de dinossauro… Mas consegui o som do telefone. E o velho mercedão-monobloco-com-motor-atrás-azul-e-branco que fazia a linha Vila Olímpia-Anhangabaú, o 700? Um naipe de palhetas, tipo o naipe do Glenn Miller. Porém com um toque mais tristonho, esse ônibus se arrastava, levava horas pra pegar embalo. Por que será que as coisas – pelo menos sem serem provocadas – emitem sons tão mais tristes que os das pessoas? Será que a matéria em si já carrega melancolia? Quem aí já ouviu um carro de boi? Angústia total, desespero na paração. Os freios de ar comprimido das carretas. E, em especial aqui em SP, numa certa região, alguns aviões. O velho Electra da ponte aérea descia chiando, um sotaque full carioca. E subia bem grave, notas longas de contrabaixo tocado com arco naquelas sinfonias bem solenes, lentonas, até sumir no céu. E o Viscount? Órgão de tubo, estridentíssimo, grandes acordes soando em catedral européia. O Caravelle era o som do fim do mundo. O DC-3 era Joe Pass solando standards. O DC-6 soava como uma banda de rythm and blues: sincopado e valvulado. Aliás, por falar em Cometa, tinha o Cometão que fazia a linha pra Campinas (onde eu ia ver a minha avó e ouvir a sirene), um ônibus gringo, fazia (vezes mil) um barulho do cara espermendo laranja na lanchonete, sabe qual? Campinas de novo: a máquina elétrica da Cia. Paulista chegando na grande estação, reverberando na gare imensa, naipe de cordas em uníssono tocado com vigor, e com um baita sino, ainda por cima. Bronze. A máquina diesel da Cia. Mogiana saindo da mesma estação: o apito estrondoso era o trombone do capeta, colava o brinco, e quando ela andava é que começava o solo de Fender Rhodes. Nada mais americano, nada mais anos 50: cadilaque. O barulho dos passos no Vigilante Rodoviário: acho que o vigilante Carlos tinha microfone no pé! Barulho de mar batendo no atracadouro: São Francisco do Sul. O madeirame da Ponte Pênsil em São Vicente. Vento na copada, isso nem sempre rola em SP. Mas rola o ruído grave da cidade, sempre ao longe: é o significado da palavra rumor. Gangorra, balança: ritmos africanos, tocados por pífanos. A sala de teletipos da UPI, sabe o que é um monte de teletipo? É um groove infernal, funk nervoso. Criança chorando, criança brincando, criança gritando: energia vital, necessidades básicas, prazer: o encontro do Bozo com os Meninos Cantores de Viena na porta do céu. Porta de saída do céu. Velho roncando depois do almoço, colchão de mola rangendo, porta batendo, Chevrolet Gigante passando sozinho na rua à noite: rádio nacional. Lambretas. Kadron. Guarda-noturno com apito de juiz de futebol, afiador de faca fazendo escala pra cima e pra baixo. Baralho. Chove, e a água pinga na calha de metal: mais blues. Tiro e corpo caindo: real e cruel. O meu amigo Pena Schmidt, um cara que pôs um bocado de paulistano na roda, ele tinha uma gravadora chamada Tinitus (que é um barulho que tem lá dentro do ouvido), e sabe quais eram os discos mais vendidos? Um era o barulho do mar de Búzios, outro eram as lareiras de Monte Verde. Sintomático. A gente precisa de som. E na rua eles costumam ser selvagens, se imprimem pra sempre na memória. E, se a gente quiser mais, e sempre quer, pra essa sonzera toda virar música, é só adicionar melancolia, solidão, desejo, uma certa estupidez. Quem faz isso tanto pode ser o artista quanto você (eu), amigo ouvinte. Cuidado só com a dose. Pro remédio não virar veneno, ou vice-versa. abraço, até mais Mauricio P.S. Se alguém já ouviu algum desses barulhos, me escreve, só pra eu ter certeza que eles existem mesmo. Anota: mauricio@pereira.com MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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