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Fechar os olhos e se atirar O um segundo entre sair do camarim e entrar no palco, debaixo da luz quente, na frente das pessoas. O tempo de uma respiração, acho q até menos. Um tipo de tempo tipo o tempo q o trapézio pára lá em cima, velocidade zero entre o ir e o vir. Gravidade zero.
Tempo pra cacete. Pra lembrar q não era bem isso q eu queria fazer, meu pai, minha mãe, minha avó, o navio em q eles vieram pra cá. Lembrar q eu não queria estar ali naquela hora, não quero, eu nunca quis, só estudei música pra ganhar aquela mina lá na esquina, bobagem, tudo mentira… O tempo q cai a ficha de todo o tempo q gerou aquele microtempo parado: estudar, assistir, ouvir, assobiar, copiar, errar, ouvir Raul, Beatles, Lindomar, Hermeto, primeiro baile, primeiro show, primeiro disco, primeiro disco meu, criar, fazer, refazer, imaginar, ter certeza, não ter certeza, materializar, fazer arranjo, mostrar pra alguém, montar a banda, apresentar os músicos uns pros outros, fazer ela funcionar, levar a música pros músicos, eles meterem a mão nela, ciúme, tristeza, putice, ego, maravilha, ensemble, mágica, ensaio pra caralho, começa-se a tocar de olhos fechados, começa-se a ouvir o q se toca, o q os outros tocam junto com vc, mais ensaio pra caralho, no último ensaio ainda não tinha ficado bom, na passagem de som não deu tempo de ensaiar, mão gelada, boca seca, e sabe q por um momento bate um sossego absurdo no meio dum furacão? Solidão de monge na caverna do Nepal… Um momento em q nenhum celular vai tocar. Utilidades… O anjo-da-guarda se apresenta, independentemente da convicção, protege as costas… O vácuo suga pra dentro, o ar entra, tubos, luz, fios, o tradicional Shure 58 é uma visão familiar, a paz, é pau, é o esquecimento total, o sexo explícito, é o meio do tobogã: ao ir encarar as gentes, um ouvido de cada lado, um retorno de cada lado, ouve o q os caras tão tocando – o q vai pela cabeça deles? A primeira nota, o primeiro ataque, o primeiro beijo, a primeira impressão é o q conta, afinar, emitir, transmitir, aviso, porrada, abraço, clinche: bonito na foto, mija-se no território e vai-se pro mundo q o ensaio não prevê. Tudo o q é como tem q ser. Tudo o q não é. E por isso mesmo abre o leque de possibilidades. Relaxo e gôzo, o cavalo, reverente, deixa o santo baixar, prostração. E ele vem com força, se instala, as crenças e o vazio abrem alas e pedem passagem pra a disciplina atropelar: mão, pé, pele. Força do céu, da matéria, do assunto: as 12 notas sugerem q o universo é finito e alguém é pequeno dentro dele. Tudo é tão sagrado, e ainda assim não dá pra levar a sério demais. O carnaval é a entrada das tais grutas onde meditam os monges. Rituais com fogo, fuoco, foco… tá ligado? Medir com a memória, sentir o coletivo intensamente: da frente, pela surpresa; dos lados, pela vibração dos diferentes instrumentos, mentes, descontroles; de dentro, pelo tamanho excessivo e pequeno, como eu já falei. Começa então um trabalho de identificação dos corpos, o corpo-a-corpo, a troca de figurinhas: repetidas por novas, novas por repetidas, carimbadas. As variadas velocidades, temperaturas, direções e cheiros dos ventos: novamente uma questão de pele. E no meio de tudo, as matemáticas, inconscientes e dominadas, tipo o gato e a geometria analítica. Golpe de vista. Sorte. E as horas de estudo se mostram, ou melhor, se escondem. Ou melhor. E todas aquelas notas – figuras, palavras, entonações, tecnologia, volume: musculatura –, tudo aquilo cria o transe e vai pro beleléu. Putz, dá muito trampo pra descascar a palavra, trazer o q tá por trás da palavra. Um palmo pra cima da cabeça das pessoas é onde se dá o contato. Tem dia q dá pra ver, contra a luz, um halo, tem vez q dá até pra ouvir o rumor do coletivo. Coisas q não se descrevem bem, mas se realizam. Sabe q um belo dum show pode curar enxaqueca, mau humor, dor-de-corno, azia? Não pelo q se diz, pelo q se vê, pelo q se ouve. Não. Propriedades físico-químicas, intrínsecas, sais e ácidos e mais além: homeopatias. “Matéria é energia”, já dizia o compositor. Esse é o slogan (consulta Cassiano): “Me dá as tuas mãos, as duas ao mesmo tempo” (consulta Pereira). Fechadas em figa. Virar a pista de cabeça pra baixo, penetrar as formas geométricas: ciranda, quadrilha, rave. Rave on (consulta Buddy Holly), manifestar a comunidade na pélvis (consulta Elvis). Não é assim? Uma maneira de servir às pessoas? O sábado é sagrado. Consulta Reich, consulta o ogã. Esse é o templo de um segundo. MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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