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Querido diário, ou quase isso Fazia quase 8 anos q eu não gravava disco de estúdio. E disco autoral tbem. Meu último autoral foi Mergulhar na surpresa, q eu gravei em janeiro de 98, acompanhado pelo piano do Daniel Szafran e aqui e acolá mais algum mano paulistano convidado. Em 2003 eu gravei, ao vivo, o Canções q 1 dia vc já assobiou - vol.1, num fim de semana, em 3 shows.
Pois agora tou gravando de novo (isso aqui é o meio de 2006). Tudo muito diferente, agora. Vou considerando. No disco de 98 eu vim de 5 anos de estrada com o Szafran, e, na boca de gravar o disco ainda teve mais 2 semanas de ensaio intensivo, diário. Eu mal posso acreditar q um dia já deu pra ensaiar assim. O fato é q foram uns 60 takes em 3 dias, sempre das 6 da tarde pra frente. Sem dubs, s/metrônomo, nós 2 na mesma sala. Um disco q precisou preparo físico. Mas, ali, janeirão, depois do fim do ano, bem ou mal sempre a gente consegue descansar um pouco e é uma época q não tem muito trabalho pra fazer, o mercado é fraco mesmo no começo do ano. E o fato de eu ter muita (põe muita aí) estrada c/o Daniel fazendo aquele repertório tbem facilitou: eu não precisei pensar muito em arranjos nem em como cantar cada música. Eu já conhecia o feeling delas. Era mesmo chegar no estúdio e mandar bala. Já o disco de 2003 tbem tinha suas facilidades. Eu não gravei nada meu, e era um repertório q eu vinha cantando há alguns anos junto c/o Turbilhão de Ritmos, e em alguns casos até antes, qdo eu toquei com vários daqueles músicos no Fanzine, de 92 a 94. Sabe q esse disco chegou a ser gravado ao vivo em 2000, ao vivo mesmo, no Supremo Musical, em SP? Mas foi um material q acabou se perdendo, problemas de produção (pré-produção?), uma longa história (cruel..). Vê como são as coisas: esse disco tinha mesmo q sair, pque qdo ele gorou ali em 2000, acabaram os shows, desfez-se a banda, eu me vi num mato s/cachorro, s/disco e s/repertório novo de tipo algum, foi uma época difícil ali, um pequeno vácuo na cabeça (coração?), mas, de um modo ou de outro, músico independente tem q ser resistente, então, dentro desse raciocínio, eu resisti. Só não me lembro como, mas toquei bem pouco até quase o fim de 2002. Mas eu disse, tinha q sair, então no fim de 2002 o acaso deu outra chance, e sem querer querendo a banda existia de novo: foi plug and play... Enfim, fora a epopéia pra chegar o dia em q esse disco foi gravado – uma verdadeira novela mexicana –, gravar mesmo ele foi muito fácil, os arranjos, letras e o feeling tavam na mão, a banda se conhecia super bem, tava feliz de estar ali. Fora o q, ali tinha canções dos outros, mas eu conhecia elas desde pequeno, cantei tudo aquilo no chuveiro mil vezes, na real foram quase 40 anos de ensaio... Me ocorreu q eu conhecia aquele repertório muito mais intimamente do q eu vou conhecer qualquer música minha q eu tenha feito a 2 ou 3 anos atrás. Coisas q tão no repertório de todo mundo há anos, textos e melodias muito mais comuns q os meus. (Fora o q, q eu me lembre, nunca cantei uma música minha no chuveiro, só as q eu compus lá...) Bom, essa volta toda foi só pra contar q agora tou gravando um disco com muitas características diferentes, coisas novas pra mim (bom, né? q sempre tem novidade no caminho da gente, novas questões pra se enfrentar – além das velhas, claro). A primeira coisa tá sendo gravar um disco c/um repertório q eu nunca cantei antes. Canções são um troço engraçado... Vc vai amaciando elas q nem se amacia sapato. Pelo menos comigo funciona assim. Aí, depois de um certo tempo, o jeito de cantar, a emoção, a melodia, a dinâmica, a divisão, tudo isso vai se mostrando, pelas tentativas e erros, pelo cérebro, pelo sentimento, pelos acasos, pelos toques q os músicos trazem. Tem tbem alguma coisa diferente q vem do meu feeling de compositor, de texto (putz, eu quase ia dizer poeta... talvez pque em algumas horas o trabalho ali pareça de mais poeta do q de compositor, não sei bem porquê), q eu ainda não captei direito, mas percebo enqto vou cantando (ou tentando cantar, né?). Não fiz show cantando essas músicas, só mostrei pros músicos quase na hora de gravar. E a banda é nova tbem, já toquei c/todos eles mas não juntos. Fiz uma produção imaginando uma formação de bateria/baixo/fender rhodes, e na hora de fazer mesmo o disco acabei chamando o Tonho Penhasco e o Luizinho Waack, então ele vai ser um disco de guitarras, violões. Essa própria história de cantar ouvindo guitarra e violão é meio nova pra mim tbem. Tou curtindo, identificando pegadas, fraseados, a simplicidade e a conexão com o pop q esses instrumentos de corda trazem. E tou aprendendo e apreendendo o timing do Tonho e do Luizinho, q além de belos amigos são músicos dos quais eu sou superfã, pelo talento pra tocar e pela criação, pelas soluções q eles inventam, mentes inquietas. E vou contar q eu tenho enchido um pouco o saco deles pra a gente ser simples, muito simples, e ao mesmo tempo não perder a invenção, a intenção. Ser redundante e ser inquieto. Será q eles tão sofrendo na minha mão? Mas o processo tem sido tranquilo. Eu tou mais ou menos c/a cabeça feita sobre o q eu quero, mas ao mesmo tempo eu tou louco pra ser convencido por algo de novo, de diferente, pela visão de cada músico. E pelo acaso, claro, sempre. Planejar tudo nos mínimos detalhes só pra enfrentar as surpresas do percurso, pagar minha língua... Então, nesse disco tou tendo q cantar e gravar as músicas sem ter total intimidade com elas, tou tendo q me entregar às sensações q a pele e a antena me dão. Tou tendo q funcionar à queima-roupa numa coisa q pra mim é lenta e profunda: o conhecimento de uma canção (conhecer no sentido bíblico, se é q vcs me entendem...). Pque eu sou rápido no palco, improviso muito, mudo show no meio, tenho trabalhado c/músicos q têm essa característica: sangue frio e sangue quente. Mas o sentimento de uma canção tá lá no fundo, tipo uma baleia, um transatlântico, é justo ele q me segura o pé no chão qdo eu tou viajando ali no palco. Em suma, aprendendo a ser rápido numa coisa q eu acho q tem q ser lerda q nem envelhecer uísque. Tem gente q capta de prima, né? O André é assim, uma força instantânea da natureza qdo ele faz música. Ela já sai pronta, não tem rascunho. Vc pode gostar ou não, mas esse é o processo do cara. Então, ter trabalhado (e ainda estar trabalhando...) c/um cara desse é uma sorte, pque pelo menos eu já imagino como seja esse processo de me instalar numa canção instantaneamente... Pegar o feeling da banda nova tbem tem sido uma tarefa. Além do Tonho e do Luiz, chamei o Mano Bap e o Leandro Paccagnella. Dois baita músicos, q vêm de caminhos variados, com quem eu já toquei uma vez ou outra. E o quarteto mesmo nunca tocou junto, apenas alguns poucos ensaios. Mas parece q tá dando liga, tou louco pro disco ficar pronto e eu poder fazer show com eles. Essa belíssima banda pra mim é um mistério ainda. Mas acho q eles captaram lindamente o trabalho, mesmo na pressão (e na pressa) em q ele tem sido feito, e trouxeram muito deles pro disco, no estilo, no entendimento, na pegada, na bagagem deles. Outra coisa q tem me encafifado nesse disco e q, por mero acaso, nunca aconteceu antes (sorte? ou a vida mudou no século XXI?), é q pela primeira vez eu tou tendo q gravar o disco e fazer mais mil coisas ao mesmo tempo pra ganhar a vida. Tou elétrico, tou no stress, tou indo. Não tem como só gravar disco, os tempos são mesmo outros, hoje não dá mais pra recusar trabalho (ou adiar, o q dá no mesmo...) qdo pinta, seja o q for. Eu tenho mais filho pra criar, tenho feito um monte de coisa ao mesmo tempo, coisas q são diferentes de ser músico, c/outro ritmo, outras linguagens, propaganda, jornalismo, direção, produção, até casamento... E pra piorar (o q é melhor...) o André me veio outro dia com a idéia de reativar o Mulheres, tipo já... E tem ainda os shows c/o Turbilhão, todos temáticos, um diferente do outro, dá um trabalho e um tesão danado, um dia foi marchinha de carnaval pra criança, outro dia foi jovem guarda num parque, depois como banda de apoio num festival de mpb, culminando com um show de música italiana pra a festa de São Vito, no Brás. Enfim, de vez em qdo a cabeça bate um pouco de pino, esqueço letra de música, esqueço algum filho pela cidade afora, contas atrasam... Vou tentando não perder o fio da meada, q preguiça, meu... Aliás, onde é q eu tava mesmo? O tal disco novo e as 500 coisas ao mesmo tempo, paulistano padrão... Ainda falta gravar alguma coisa, mixar, editar, coisa e tal, não parei pra ouvir muito, nem sei se na corrida toda a voz tá funcionando (funcionou) bem. Acho q o emocional tá, catei ele mais ou menos, mas a voz talvez esteja meio cansada... Bom, descobri q o disco "simples" q eu tou fazendo é superdifícil de cantar: música com salto melódico, coisas muito graves, coisas no agudo, divisões indivisíveis, ufa... Por outro lado, sempre eu quis experimentar fazer disco c/um registro de voz mais "estragado" assim. E, tava pensando, tou c/46 anos, não tenho estudado vocal, SP é uma cidade barulhenta e poluída, c/certeza no decorrer do tempo (e das mudanças de tempo) a voz tem q mudar, né? Pois eu fui pra a fono caçar conforto, timbres, tecitura, possibilidades, nuances, foi uma bela experiência, desmontei a goela, gravei com a voz em obras... Tou ansioso pra acabar esse disco e mostrar pra vcs, mas ainda tem uma longa jornada de mix, edição, burocras, saídas pra biscates e buscas de paciências chinesas pra fazer antes dessa hora chegar. E tá tarde pra burro e logo amanhã eu tenho q acordar cedo e preciso dormir um pouco pque se o cara não descansa ele não canta direito e não leva sustança pro coração do cidadão comum. Certo? Abraço, até mais. Mauricio MAURICIO PEREIRA é músico e, ao lado de André Abujamra, integrou Os Mulheres Negras.
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